Reflexões sobre a formação em Psicologia diante das lógicas contemporâneas do sofrimento psíquico
Palavras-chave:
Ensino, Sofrimento, Contemporaneidade, Gestalt-Terapia, DesempenhoResumo
Introdução
O ensino da Gestalt-terapia nas universidades brasileiras parece continuar com forte presença na formação em Psicologia, acompanhando o crescimento da produção científica nacional e a diversificação de seus campos de atuação. Nesse contexto, discutir os processos de ensino da abordagem implica refletir sobre sua contribuição para a compreensão das formas contemporâneas de sofrimento psíquico e para a produção de conhecimento na graduação. Byung-Chul Han (2017) descreve a sociedade contemporânea como marcada pela lógica do desempenho, na qual a coerção externa é progressivamente substituída pela autoexploração, fazendo com que o sujeito assuma para si a exigência permanente de maximizar seu rendimento. Essa dinâmica favorece diferentes formas de sofrimento psíquico e constitui um importante campo de reflexão para a Psicologia. A partir da experiência docente na disciplina Matrizes do Pensamento: Humanista-Existencial, do curso de Psicologia da Faculdade Anhanguera de Rio Grande (RS), este trabalho propõe discutir como a Gestalt-terapia em contato com a lógica de Han pode contribuir para a formação de estudantes capazes de compreender criticamente a subjetividade produzida nas relações entre indivíduo e seu espaço no mundo de hoje.
Objetivo
Refletir sobre o ensino da Gestalt-terapia em um curso de graduação em Psicologia como espaço de produção de conhecimento, discutindo sua contribuição para a compreensão do sofrimento contemporâneo, a ampliação dos campos de atuação da abordagem e a importância da produção bibliográfica recente para o interesse e a formação dos estudantes.
Metodologia
Trata-se de um relato de experiência, de natureza qualitativa e caráter reflexivo, fundamentado na prática docente desenvolvida em uma disciplina chamada Matrizes do Pensamento em Psicologia: Humanista-Existencial. As atividades envolveram aulas dialogadas, discussão de obras clássicas e contemporâneas da Gestalt-terapia, análise de situações clínicas e sociais, estudos de caso e problematizações acerca das transformações da subjetividade na contemporaneidade. O percurso pedagógico surge de uma postura fenomenológica, estimulando a articulação entre conceitos e a visão do mundo atual.
Resultados e Discussões
A aproximação entre os fundamentos da Gestalt-terapia e as discussões sobre subjetividade contemporânea mostrou-se um importante recurso para ampliar o interesse dos estudantes pela abordagem. Em diálogo com Han (2017), as discussões permitiram compreender que o sofrimento psíquico não pode ser reduzido exclusivamente às características individuais, mas também pode ser entendido como expressão das formas de organização social marcadas pela autoexploração e pela exigência permanente de desempenho. Nessa perspectiva, a Gestalt-terapia foi apresentada não apenas como uma modalidade psicoterápica, mas como um referencial teórico capaz de compreender os modos de contato produzidos na relação entre sujeito e campo.
Outro aspecto relevante foi a ampliação da compreensão acerca da diversidade de contextos de atuação da abordagem. As discussões sobre Gestalt-terapia com crianças despertaram significativo interesse ao evidenciarem possibilidades de intervenção fundamentadas na brincadeira, na criatividade, na expressão simbólica e na construção da relação terapêutica, conforme as contribuições de Violet Oaklander e Luciana Aguiar. Pensar a infância como um lugar de sofrimento psíquico com base nas lógicas contemporâneas de desempenho prematuro foi um fio condutor bastante significativo para mobilizar a atenção dos alunos. Do mesmo modo, observou-se que o crescimento da produção bibliográfica brasileira e a disponibilidade de traduções de qualidade têm favorecido a inserção da Gestalt-terapia na formação universitária, estimulando o interesse dos estudantes e fortalecendo seu reconhecimento como campo consistente de pesquisa, ensino e prática profissional.
Conclusões
A experiência docente e o vivido na troca com os alunos pareceu indicar que o ensino da Gestalt-terapia pode constituir um relevante espaço de produção de conhecimento ao promover o diálogo entre fundamentos fenomenológicos, questões sociais contemporâneas e diferentes possibilidades de atuação do psicólogo. Isso parece ajudar a furar uma bolha hermética que insiste em manter a produção acadêmica e clínica com certas distância da realidade ou presa em tempos distantes. De maneira geral, ao articular teoria, experiência e reflexão crítica, a abordagem favorece uma formação comprometida com a compreensão contextualizada da experiência humana e contribui para consolidar a Gestalt-terapia como um campo vivo de ensino, pesquisa e produção científica possível no contexto universitário do Brasil.
Referências
AGUIAR, Luciana. Gestalt-Terapia com Criança. São Paulo: Editora Livro Pleno, 2005.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2017.
OAKLANDER, Violet. Descobrindo crianças: a abordagem gestáltica com crianças e adolescentes. São Paulo: Summus, 1980.
RIBEIRO, Jorge Ponciano. Gestalt-Terapia: refazendo um caminho. São Paulo: Summus, 2012.