Quando o amor é resistência ao racismo

Um relato gestáltico

Autores

  • Patricia de Souza Fanfa
  • Elaine Sousa

Palavras-chave:

Gestalt-Terapia, racismo, conjugalidade, awareness, sofrimento psíquico

Resumo

Este trabalho apresenta um relato de prática clínica desenvolvido durante estágio em Psicologia na Clínica Escola da Universidade do Oeste de Santa Catarina (UNOESC), fundamentado na abordagem da Gestalt-Terapia. O caso refere-se ao acompanhamento de um casal oriundo da região Nordeste do Brasil, residente há quatro anos na região Sul, que buscou atendimento psicológico em decorrência do sofrimento emocional provocado por experiências de racismo vivenciadas em seus contextos de trabalho. Os episódios discriminatórios relatados produziram sentimentos de humilhação, desrespeito, desamparo e exclusão, deixando marcas emocionais significativas e impactando a forma como ambos percebiam o ambiente e suas relações. Embora a queixa inicial estivesse relacionada às experiências de racismo, ao longo do processo terapêutico também emergiram conflitos conjugais, dificuldades na expressão de afeto, ressentimentos acumulados e questões familiares que atravessavam a relação. O objetivo deste trabalho é refletir sobre as contribuições da Gestalt-Terapia no acolhimento e na elaboração do sofrimento decorrente de experiências de racismo, bem como compreender seus impactos na relação conjugal. Trata-se de um relato de experiência fundamentado na prática clínica gestáltica, sustentado pela compreensão fenomenológica da experiência vivida, pela valorização do aqui-e-agora e pela atenção aos processos de contato estabelecidos pelo casal. O processo terapêutico ocorreu por meio de sessões semanais, com foco na construção de um espaço seguro para expressão das emoções, fortalecimento da awareness e ampliação da consciência acerca das formas de contato consigo, com o outro e com o ambiente. As intervenções priorizaram a escuta qualificada, o acolhimento das experiências relatadas, a exploração das emoções emergentes diante das vivências de racismo, o incentivo à verbalização das necessidades e o favorecimento da escuta mútua. Também foram trabalhados aspectos relacionados à comunicação do casal, às diferentes formas de expressar afeto e às expectativas construídas ao longo da relação. Durante os atendimentos, observou-se que as experiências de racismo constituíam a principal fonte de sofrimento apresentada pelo casal, influenciando sentimentos de pertencimento, autoestima e segurança emocional. Foi possível identificar interrupções no contato, especialmente relacionadas a expectativas não verbalizadas e dificuldades de reconhecimento das manifestações de cuidado e amor presentes na relação. A ampliação da awareness favoreceu o reconhecimento desses movimentos, possibilitando novas formas de diálogo e maior validação das experiências emocionais de ambos. A compreensão gestáltica permitiu acolher o sofrimento decorrente das experiências discriminatórias sem dissociá-lo do campo relacional em que o casal estava inserido. Apesar das dores vivenciadas, observou-se que o vínculo afetivo constituiu importante fonte de suporte emocional, favorecendo movimentos de aproximação, cuidado mútuo e fortalecimento da relação. Conclui-se que a Gestalt-Terapia oferece contribuições significativas para o acolhimento de pessoas impactadas por experiências de racismo, favorecendo a tomada de consciência, a expressão emocional e a construção de formas mais autênticas de contato. O caso evidencia a importância de uma escuta clínica sensível às repercussões subjetivas do racismo e demonstra que o fortalecimento dos recursos relacionais pode contribuir para o enfrentamento do sofrimento vivido e para a ampliação das possibilidades de ajustamento criativo diante das adversidades.

Referências

ALMEIDA, Silvio Luiz de. Racismo estrutural. São Paulo: Jandaíra, 2021.

FONSECA, Samanta Santos da. Racismo à brasileira e sofrimento psíquico da população negra: contribuições da Gestalt-terapia. In: MARRAS, Margaret (org.). Angústias contemporâneas e Gestalt-terapia. São Paulo: Summus, 2020. p. 95-136.

PERLS, Frederick S.; HEFFERLINE, Ralph F.; GOODMAN, Paul. Gestalt-terapia. São Paulo: Summus, 1997. (Obra original publicada em 1951).

YONTEF, Gary M. Processo, diálogo e awareness: ensaios em Gestalt-terapia. São Paulo: Summus, 1998.

Downloads

Publicado

2026-10-30