O trabalho grupal gestáltico

Possibilidades de existência e ajustamento criativo

Autores

  • Ana Beatriz Krenzlin de Souza UNIVALI
  • Daniely Cristina Daniel UNIVALI
  • Guilherme Medeiros Barbi da Costa UNIVALI

Palavras-chave:

Gestalt-terapia, Envelhecimento, Psicoterapia de Grupo, Pessoa idosa

Resumo

RESUMO: Introdução: Com o aumento da longevidade populacional, torna-se urgente o desenvolvimento de intervenções em saúde mental voltadas para a terceira idade que contemplem as demandas emocionais do envelhecer para além dos aspectos biológicos. Sob o olhar da Gestalt-terapia, observa-se que não existe uma velhice homogênea, mas “velhices” singulares, vivenciadas a partir do campo existencial e relacional de cada sujeito (Soares; Serra; Ravaioli, 2025). Entretanto, a relação com questões existenciais como a finitude, o sentido da vida e as perdas afetivas, pode contribuir para um enrijecimento das fronteiras de contato e um isolamento social (Botelho, 2016; Polster; Polster, 2001). Diante disso, o dispositivo grupal emerge como espaço de acolhimento e sustentação, atuando como uma matriz relacional que resgata a universalidade das vivências e flexibiliza essas fronteiras (Ribeiro, 1994), viabilizando novas possibilidades de existência. É a partir desse referencial que o presente trabalho propõe refletir sobre a vivência de um estágio em Psicologia com grupos de idosos. Objetivos: Compreender, sob a perspectiva da Gestalt-terapia, a experiência de um estágio de psicologia com grupos de idosos, analisando como o ajustamento criativo possibilita a construção de novas perspectivas existenciais. Metodologia: Trata-se de um estudo descritivo do tipo relato de experiência, derivado das vivências de um estágio não obrigatório em Psicologia realizado em uma instituição privada de serviço social de Santa Catarina. O público-alvo foi composto por idosos frequentadores da instituição, organizados em grupos abertos de convivência com fluxo contínuo de entrada ao longo do ano. A amostragem caracterizou-se por uma variação de 4 a 25 participantes, a depender do grupo oferecido, contemplando oficinas de música, trabalhos manuais, estimulação cognitiva, inclusão digital e expressão corporal. Os encontros ocorriam com periodicidade semanal, com duração aproximada de 1h40 por sessão. Os encontros eram estruturados em um momento inicial de acolhimento e recepção dos idosos; a atividade central, usando os recursos específicos de cada grupo para abordar diferentes temáticas (como envelhecimento, autonomia e sonhos); o encerramento, ocorrendo a integração e compartilhamento da vivência; e o momento do café, dedicado à socialização espontânea e ao fortalecimento do heterossuporte. Os dados foram produzidos mediante observação participante e registros em diários de campo formulados após cada encontro. Em cumprimento às diretrizes éticas da atuação e pesquisa em Psicologia, os nomes dos participantes e as informações da instituição foram anonimizados para assegurar o sigilo. Resultados e discussões: A vivência nos grupos evidenciou que as demandas do envelhecer ultrapassam o declínio biológico, revelando um campo denso de necessidades afetivas e relacionais. Em um primeiro momento, as narrativas eram carregadas de perdas, isolamento e retraimento frente às mudanças da idade, enrijecendo as fronteiras de contato com o meio. Contudo, a continuidade das oficinas permitiu que o grupo operasse como uma matriz relacional viva (Ribeiro, 1994), onde a livre expressão das angústias gerou identificação entre os pares, reduzindo o sentimento de solidão. Notou-se que os recursos expressivos das oficinas funcionaram como veículos de ajustamento criativo (Perls; Hefferline; Goodman, 1997), possibilitando que os idosos encontrassem formas inovadoras e espontâneas de responder às questões existenciais enfrentadas. Ao cantar, criar, movimentar-se ou aprender novas tecnologias, o grupo reorganizou sua relação com o presente, ressignificando a experiência do envelhecer para além do discurso de inutilidade e reconstruindo, no aqui-e-agora, um sentido de autoria sobre a própria existência. Assim, o grupo revelou identidades em constante transformação, abertas para a novidade e possuidoras de projetos e vontades de vida (Motta, 2002) Conclusões: Conclui-se que o dispositivo grupal, sustentado pelos princípios da Gestalt-terapia, favoreceu para que os idosos experimentassem seu processo de envelhecer de modo mais autêntico e ativo, mobilizando ajustamentos criativos diante dos desafios existenciais da velhice. A experiência de estágio reafirma a relevância do dispositivo grupal como estratégia de cuidado em saúde mental para a pessoa idosa, evidenciando que a criatividade, a expressão e o vínculo constituem caminhos potentes para o resgate da identidade, da autonomia e do sentido de vida nessa fase.

Referências

BOTELHO, J. O trabalho com idosos em Gestalt-terapia. In: FRAZÃO, L.; FUKUMITSU, K. (org.). Modalidades de intervenção clínica em Gestalt-terapia. São Paulo: Summus, 2016. p. 110-139.

MENDONÇA, B. I. O.; BRITO, M. A. Q. Compreensão gestáltica de oficinas de contação de histórias em um grupo vivenciando a velhice. Revista da Abordagem Gestáltica, Goiânia, v. 25, n. 1, p. 26-37, 2019.

MOTTA, A. B. da. Envelhecimento e sentimento do corpo. In: MINAYO, M.; COIMBRA JUNIOR, C. (org.). Antropologia, saúde e envelhecimento. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 2002. p. 37-50.

PERLS, F.; HEFFERLINE, R.; GOODMAN, P. Gestalt-terapia. São Paulo: Summus, 1997.

POLSTER, E.; POLSTER, M. Gestalt-terapia Integrada. São Paulo: Summus, 2001.

RIBEIRO, J. P. Gestalt-terapia: o processo grupal. São Paulo: Summus, 1994.

SOARES, Laura Helena Arantes; SERRA, Rayane de Souza; RAVAIOLI, Martina. ENVELHECIMENTO, SUBJETIVIDADE E O POTENCIAL CRIATIVO: O ATENDIMENTO A PESSOA IDOSA EM GESTALT-TERAPIA. Episteme Transversalis, [S. l.], v. 16, n. 2, p. 66–78, 2025. DOI: 10.64892/et.v16i2.3591.

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Publicado

2026-10-30