Racismo e cuidado

Um relato de experiência com mulheres negras

Autores

  • Elaine de Fátima Silva Almeida Universidade do Vale do Itajaí
  • Samille Luciane Guimarães Schonwald Universidade do Vale do Itajaí
  • Felipe Padilha Universidade do Vale do Itajaí

Palavras-chave:

Contato, Gestalt-Terapia, Mulher Negra, Racismo Estrutural, Saúde Mental

Resumo

A produção do sofrimento psíquico, quando analisada a partir dos determinantes sociais, evidencia que experiências de opressão atravessam de modo significativo a constituição subjetiva. No contexto brasileiro, apesar da existência da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra, ainda persistem lacunas na oferta de cuidado em saúde mental voltado às mulheres negras, especialmente em territórios marcados por desigualdades sociais. Este trabalho tem como objetivo relatar e analisar uma intervenção realizada por acadêmicos de Psicologia da Universidade do Vale do Itajaí, junto ao grupo “Saúde Integral da Mulher Negra”, vinculado ao serviço de atenção básica no município de São José, SC, articulando contribuições da Psicologia Social e Comunitária, no contexto de uma experiência de curricularização da extensão universitária, com referenciais da Gestalt-terapia. Trata-se de um estudo qualitativo, de caráter descritivo, fundamentado em observação participante e entrevista não estruturada com a coordenação do grupo, o que possibilitou identificar demandas como sobrecarga de trabalho, sofrimento emocional e os efeitos do racismo estrutural na vida cotidiana das participantes. A intervenção consistiu na realização de um encontro temático que integrou práticas de relaxamento, exibição de vídeo sobre o autocuidado feminino, leitura do conto “Olhos d’água”, de Conceição Evaristo, e roda de conversa. Durante o encontro, tornou-se evidente a construção de um espaço de presença e acolhimento, no qual as participantes compartilharam experiências marcadas por dor, resistência e sobrecarga, configurando um campo relacional de escuta e reconhecimento mútuo. Sob a perspectiva gestáltica, a experiência pode ser compreendida como uma configuração de campo em que vivências como o cansaço, o silenciamento e os efeitos do racismo emergem na fronteira de contato, tornando-se passíveis de reconhecimento e elaboração na relação com o outro. A roda de conversa constituiu-se como um dispositivo de contato vivo, no qual a fala e a escuta favoreceram processos de awareness, permitindo às participantes reconhecerem aspectos de suas experiências frequentemente naturalizados ou invisibilizados. A vivência do encontro produziu momentos de identificação e validação que fortaleceram o coletivo e ampliaram a consciência sobre si e sobre o contexto em que estão inseridas. Ao mesmo tempo, emergiram limites institucionais relevantes, como a ausência de dados systematizados por raça e cor no território, a resistência de parte das equipes de saúde que reduziu o engajamento e a fragilidade de políticas públicas locais, elementos que incidem diretamente na sustentação de iniciativas dessa natureza. Destaca-se que o momento desta intervenção coincidiu com o encerramento das atividades do grupo, que não ocorreu por falta de adesão, mas pela descontinuidade institucional e pela dependência de iniciativas vinculadas a programas temporários, como a residência multiprofissional, evidenciando a contradição entre a potência do encontro vivido e os limites institucionais que impedem sua continuidade. A intervenção evidencia a força dos espaços grupais como lugares de reconhecimento e reconstrução de si, especialmente quando sustentados por uma escuta sensível e pela valorização da experiência vivida. Em um cenário contemporâneo marcado por desigualdades persistentes, a articulação entre Psicologia Social e Gestalt-terapia mostra-se fecunda ao compreender o sofrimento como experiência situada nas relações, atravessada por condições históricas e por dinâmicas sociais mais amplas. Conclui-se que práticas grupais que favorecem o contato, a expressão e a validação das experiências contribuem para processos de fortalecimento subjetivo e produção de saúde, ao mesmo tempo em que evidenciam a necessidade de políticas públicas estruturantes que garantam a continuidade de ações voltadas à equidade racial.

Referências

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Publicado

2026-10-30