O silêncio à luz da Gestalt-Terapia
Palavras-chave:
Silêncio, Gestalt-Terapia, Espiritualidade, Psicoterapia, Aqui-agoraResumo
Introdução: A humanidade é marcada por ruídos e silêncios. Embora a sociedade capitalista moderna veja o silêncio como improdutividade, tradições milenares o reconhecem como central para a experiência humana. Para a espiritualidade, o silêncio é oração e acesso ao sagrado. Para a Gestalt, experienciar e sentir a espiritualidade acontecendo em nós é revelação, encontro, deixar que o sagrado apareça. Na prática clínica, observa-se a dificuldade do consulente em lidar com o vazio e quietude. Diante disso, questiona-se: como compreender o silêncio à luz da Gestalt-Terapia? Objetivo: Compreender a vivência do silêncio do sujeito por meio da abordagem da Gestalt-Terapia, considerando processos filosóficos, históricos e espirituais. Metodologia: Trata-se de uma revisão bibliográfica de caráter qualitativo. Foram consultadas bases como PEPSIC, SciELO, Google Acadêmico, CAPES e livros físicos, utilizando os descritores "silêncio", "psicoterapia", "filosofias orientais" e "gestalt-terapia" em português, inglês e francês. A seleção ocorreu por leitura de resumos e do texto integral. Devido à escassez de publicações, não houve limitação cronológica, incluindo obras clássicas da Gestalt. Resultados e Discussões: O silêncio é fundamental para construir a realidade. O desconforto diante dele revela tensões micro e macropolíticas. Para o Dicionário de Português, silêncio é ausência de ruído, associado à calma e ao mistério. Na música, é pausa. Contudo, culturas interpretam o silêncio de formas distintas. No Oriente pode ser sagrado. Na cultura ocidental, o silêncio é frequentemente temido e preenchido por ações e falas, como aponta Dusen (1977). Han (2015) relaciona isso à "sociedade do cansaço", marcada pela produtividade incessante. Zimmermann e Morgan (2016) destacam a avalanche de sons e a pressão para se expressar, gerando ruído em vez de comunicação. As redes sociais intensificam isso. Estamos conectados o tempo todo, mas distantes do contato presencial e do silêncio. Vídeos curtos, músicas e memes ocupam cada espaço do dia, deixando pouco lugar para a quietude. A Gestalt-Terapia, fundamentada na fenomenologia, compreende o ser de forma integral: corpo, mente, ambiente e espiritualidade. Para Ribeiro (2022), o mundo se divide em profano, sagrado e espiritual, que coexistem. O silêncio no setting terapêutico é um ajustamento criador. Estar no aqui-agora e acolher o vazio sem preenchê-lo imediatamente permite ao consulente tomar consciência e ressignificar sua experiência. O terapeuta "empresta seu corpo" ao encontro, em um ato de profunda relação. Conclusões: Para a Gestalt, o sujeito é fruto do campo social. Uma sociedade acelerada patologiza a pausa. A psicoterapia abre horizontes de possibilidade. O terapeuta acompanha o cliente na atualização da gestalt inacabada. O silêncio não é improdutividade. É saúde, presença, encontro consigo mesmo e cuidado. Corpo em equilíbrio é silêncio, que significa harmonia e não oposto ao barulho. Ao mergulhar na espiritualidade, o eu se aquieta e o silêncio se manifesta. Para a Gestalt, quanto mais vivemos a diferença com o outro, mais silêncio e ajustamento criativo existem. O silêncio precisa ser sentido, não só falado. Se terapeuta e cliente entram em harmonia, o silêncio ascende e a cura acontece. Conclui-se que o silêncio é do sentir. Que este trabalho inspire novas reflexões sobre o silêncio no espaço-tempo psicoterapêutico.
Referências
DUSEN, W. V. (1977). Wu Wei, não-mente e o vazio fértil. In Stevens, J. O. (Org.) Isto é Gestalt. Summus.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Tradução de Enio Paulo Giachini. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.
RIBEIRO, J. P. Gestalt-terapia: por outros caminhos. 1. Ed. – São Paulo: summus, 2022.
ZIMMERMANN, A. C., & MORGAN, W. J. (2016). A time for silence? Its possibilities for dialogue and for reflective learning. Studies in Philosophy and Education, 35, 399-413.