O luto não reconhecido de profissionais de enfermagem no contexto hospitalar
Palavras-chave:
Luto, Contato, Enfermagem, Morte, PacientesResumo
O presente trabalho trata se de um projeto de TCC, do curso de psicologia sobre o luto não reconhecido. O processo de adoecimento terminal, no contexto hospitalar, mobiliza não apenas pacientes e familiares, mas também os profissionais que acompanham o percurso do morrer (Casselato,2015). Tais experiências podem ser compreendidas como situações de intenso contato com limites existenciais, que atravessam os modos de subjetivação. Embora tecnicamente preparados, esses profissionais frequentemente encontram poucos espaços para elaborar as experiências emocionais decorrentes do cuidado diante da morte. Nesse cenário, o luto não reconhecido emerge como uma vivência marcada pela interrupção ou inibição do contato, na medida em que normas institucionais e a metodologia de construção científica na formação dos profissionais de saúde, na qual impõe-se a racionalidade e o distanciamento do objeto de estudo, restringem a expressão do sofrimento. Tal dinâmica pode favorecer ajustamentos criativos cristalizados, como o distanciamento emocional, impactando a forma como o sujeito se percebe e se constitui em sua relação consigo, com o outro e com o trabalho. O estudo tem como objetivo geral analisar as experiências de luto não reconhecido em profissionais de enfermagem no contexto hospitalar, à luz dos modos de subjetivação. Como objetivos específicos, busca-se: (1) compreender como esses profissionais significam suas vivências diante da morte de pacientes; (2) identificar as estratégias de enfrentamento mobilizadas; e (3) analisar de que maneira a validação ou negação dessas experiências interfere nos processos de contato e na constituição subjetiva. Uma pesquisa exploratória, de abordagem qualitativa e delineamento transversal, realizada por meio de pesquisa de campo. A coleta de dados será conduzida através de entrevistas semiestruturadas, realizadas de forma online com profissionais de enfermagem atuantes em contexto hospitalar. A amostra será composta por até 12 participantes, selecionados por conveniência, considerando critérios como tempo mínimo de atuação e experiência prévia com óbitos de pacientes. As entrevistas buscarão acessar as narrativas dos participantes acerca de suas experiências emocionais, estratégias de enfrentamento e significados atribuídos ao luto no contexto profissional. Os dados serão analisados por meio da análise de conteúdo temática, articulando as categorias emergentes com o referencial da Gestalt-terapia (Perls, 1997), especialmente no que se refere aos conceitos de contato, ajustamento criativo e modos de subjetivação. O estudo ainda está em fase de elaboração, a aplicação das entrevistas ocorrera entrega agosto e setembro de 2026, e analise dos dados e discussão estará pronta até o início do congresso, porém espera-se que os resultados evidenciem que o luto, embora presente na experiência cotidiana dos profissionais, tende a ser vivenciado de forma silenciosa e não legitimada, configurando-se como uma interrupção no fluxo de contato (Pinto, 2015). As narrativas podem revelar movimentos de evitação, dessensibilização e racionalização, compreendidos como formas de ajustamento criativo frente às exigências institucionais e à dificuldade de sustentar o contato com a dor e a finitude. Nesse sentido, o não reconhecimento do luto pode contribuir para a cristalização de modos de subjetivação marcados pelo enrijecimento afetivo e pela restrição da espontaneidade, limitando a capacidade de presença e de encontro. Por outro lado, também podem emergir estratégias que apontam para possibilidades de ampliação da awareness (Yontef, 1998) como o apoio entre pares e momentos de reflexão sobre a prática. A discussão enfatiza que os modos de subjetivação desses profissionais são produzidos na interface entre demandas institucionais, crenças socioculturais e experiências singulares, evidenciando tensões entre o cuidado do outro e o cuidado de si. Conclui-se que o luto não reconhecido constitui uma dimensão relevante na experiência de profissionais de enfermagem, operando diretamente nos modos de subjetivação e nos processos de contato. A ausência de validação dessas vivências favorece interrupções no campo organismo-ambiente, com possíveis repercussões para a saúde mental e para a prática do cuidado. Destaca-se a importância de criação de espaços institucionais que possibilitem a expressão e elaboração dessas experiências, favorecendo a ampliação da awareness e a flexibilização dos ajustamentos criativos. Assim, este estudo contribui para a reflexão, no campo da Gestalt-terapia, sobre as formas contemporâneas de subjetivação no trabalho em saúde, ressaltando a necessidade de integrar o cuidado técnico ao cuidado das dimensões emocionais e existenciais do profissional.
Referências
CASELLATO, Gabriela (org.). O resgate da empatia: suporte psicológico ao luto não reconhecido. São Paulo: Summus, 2015.
PERLS, Frederick S.; GOODMAN, Paul; HEFFERLINE, Ralph. Gestalt-terapia. 3. ed. São Paulo: Summus, 1997.
PINTO, Enio Brito. Elementos para uma compreensão diagnóstica e psicoterapia: o ciclo de contato e modos de ser. São Paulo: Summus, 2015.
YONTEF, Gary. Processo, diálogo e awareness. São Paulo: Summus, 1998.