Integração e cuidado gestáltico a pacientes internados em longa permanência em hospital geral
Palavras-chave:
Psicologia em Saúde, Gestalt Terapia, Hospitalização, Humanização da Assistência, Apoio PsicológicoResumo
O presente trabalho é um relato de experiência de Estágio Profissionalizante, realizado em Hospital Geral na cidade de Lages/SC. A instituição é de direito privado com fins filantrópicos, voltada ao atendimento das especialidades de: Neurologia/Neurocirurgia; Ortopedia/Traumatologia; Clínica Médica; Cardiologia; Cirurgia Geral e Vascular; Nefrologia; Urologia e Gastroenterologia. No atendimento da alta complexidade de saúde, Lages atua como capital regional, pois estende a cobertura dos hospitais da cidade a uma população flutuante estimada em mais de 280 mil pessoas oriundas de toda a Região Serrana (IBGE, 2020). Conforme aponta Frazão (2020) a perspectiva gestáltica parte da compreensão do sujeito, na relação organismo/meio, sendo este o local de construção da experiência humana. Nesse sentido, compreende-se que grande parte dos pacientes internados sofrem com a quebra repentina desta relação, sendo inseridos em um novo campo, com uma nova organização, uma nova gestalt. Ribeiro (2022) destaca o adoecimento como uma “interrupção nesse processo de contato dinâmico de ajustes contínuos para atender às diversas necessidades humanas” (Ribeiro, 2022, p.17), e reforça que a atenção do profissional, guiada pela perspectiva da Gestalt-terapia, está voltada ao heterossuporte do sujeito. Entende-se esta etapa, como complementa Andrade (2014), como essencial para o desenvolvimento do autossuporte necessário para autorregulação organísmica. Além do adoecimento, alguns pacientes permanecem internados por mais de uma semana, e por vezes durante 30 ou 60 dias, em função de tratamentos medicamentosos, que prescindem do acompanhamento em hospital, ou por condições de agravamento do quadro de saúde. Nesses casos, a situação de internação e suas implicações traz novas necessidades psicológicas a serem observadas e atendidas. Então, o objetivo das intervenções é mediar o processo de awareness e promover o ajustamento criativo diante do ambiente estressor do hospital, do processo de adoecimento e dos limites impostos pelo corpo e pela hospitalização. Os objetivos específicos nesse contexto são: acolher e compreender emoções, sentimentos, falas e silêncios pela perspectiva da Gestalt-Terapia; facilitar a expressão de sentimentos, valorizando a comunicação verbal e não verbal, a respiração e o silêncio. Os atendimentos psicológicos são organizados no formato de Plantão Psicológico e ocorrem à beira do leito, adaptando-se às contingências do cenário hospitalar. A aproximação e o acesso aos pacientes internados e aos seus respectivos acompanhantes ocorrem de maneira dinâmica e estruturada por meio de levantamento do tempo de internação dos pacientes e pelo encaminhamento da equipe multiprofissional, que sinaliza os casos de pacientes que manifestam reações agudas, agitação, apatia ou quadros de saúde mais complexos que demandam suporte imediato. A intervenção é breve e focada na situação presente, direcionada não somente ao paciente, mas também ao seu acompanhante. Para tanto, adota-se uma postura de presença, e escuta voltada a pessoa e suas necessidades emocionais situadas temporalmente no "aqui e agora". O atendimento funciona como um heterossuporte oferecido pelo estagiário, visando o fortalecimento dos próprios recursos e o desenvolvimento do autossuporte necessário à autorregulação organísmica frente à nova relação no campo organismo/meio. Portanto, captura-se a noção de que o olhar ao indivíduo na intenção de mediar a awareness como “dimensão corporal, mental e emocional” (Frazão, 2020, p.84) em intrínseca relação com o meio, colabora com a proposta de Saúde Integral da PNH, “que vê a qualidade de vida como o resultado de fatores biopsicossociais” (CFP, 2019, p.27). A potencialidade no uso da Gestalt-terapia no contexto hospitalar surge justamente do seu caráter fenomenológico, que baseia a intervenção na demanda que emerge da experiência atual (Diógenes, 2021), focada na necessidade temporalmente situada no aqui e agora. Deste modo, os atendimentos manejados à luz desta perspectiva, além de adequarem-se às orientações técnicas estabelecidas pelo CFP (2019) para a atuação do psicólogo hospitalar, proporcionam acolhimento integral ao sujeito ao entendê-lo em seu todo, como ser em constante relação com seu meio. As intervenções têm proporcionado aos pacientes a possibilidade de se ajustarem criativamente a partir de awareness quanto às suas necessidades e busca de apoio para satisfazê-las no contexto da internação hospitalar.
Referências
ALVIM, Mônica Botelho. Awareness: experiência e saber da experiência. In. FRAZÃO, Lilian Meyer; FUKUMITSU, Karina Okajima. Gestalt-terapia: conceitos fundamentais. São Paulo: Summus, 2014. p. 13 - 31.
ANDRADE, Celena Cardoso. Autossuporte e heterossuporte. In: FRAZÃO, Lilian Meyer; FUKUMITSU, Karina Okajima. Gestalt-terapia: conceitos fundamentais. São Paulo: Summus, 2014, p. 147 - 162.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Referências técnicas para atuação de psicólogas(os) nos serviços hospitalares do SUS. 1. ed. Brasília, DF: CFP, 2019. 128 p.
DIÓGENES, Maria de Fátima Pereira. Ressignificando histórias de vida. In: FRAZÃO, Lilian Meyer; FUKUMITSU, Karina Okajima. Recursos criativos em Gestalt-terapia. São Paulo: Summus, 2021. p. 83 - 97.
FRAZÃO, Lilian Meyer. Ética e sofrimento humano. In. FRAZÃO, Lilian Meyer; FUKUMITSU, Karina Okajima. Enfrentando crises e fechando gestalten. São Paulo: Summus, 2020. p. 83 - 95.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Regiões de Influência das Cidades: REGIC 2018. Rio de Janeiro: IBGE, 2020. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/geociencias/cartas-e-mapas/redes-e-fluxos-geograficos/15798-regioes-de-influencia-das-cidades.html. Acesso em: 28 mai. 2026.