Escuta ativa
Cerne da psicoterapia gestáltica
Palavras-chave:
Escuta Ativa, Gestalt-Terapia, Clínica-Escola, Fenomenologia, Relação DialógicaResumo
A etimologia da palavra "clínica" remete ao ato de "inclinar-se" sobre o sofrimento do outro, premissa que fundamenta a atuação psicológica (DUTRA, 2004). Nesse sentido, a Clínica-Escola constitui-se como o laboratório vivo onde o futuro profissional aprende a realizar esse movimento com rigor e ética, cumprindo a missão dupla de capacitar o discente e prestar serviço à comunidade (CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2013). Inserido nesse contexto, o presente trabalho, oriundo do Estágio Específico I do curso de Psicologia da Faculdade Anhanguera de Joinville (SC), tem como objetivo discutir o papel da escuta ativa e fenomenológica como cerne do manejo clínico na Psicoterapia Gestáltica. Metodologicamente, trata-se de um relato de experiência e reflexão teórica ancorado no tripé epistemológico da Gestalt-Terapia: o Humanismo, a Fenomenologia e o Existencialismo. Durante a práxis clínica e as supervisões, observou-se que a abordagem exige um deslocamento genuíno em direção ao espaço do outro. Os resultados e discussões apontam que a prática atua no resgate da presença imediata no "aqui-agora", na viabilização da expressão do excitamento e no estímulo ao autocuidado, que é a base da autonomia (PERLS, 1977). Percebe-se que muitos pacientes chegam à clínica com a capacidade de escutar a si mesmos comprometida, alienados por introjetos socioculturais. Para que a autorregulação desponte, a escuta fenomenológica torna-se a principal ferramenta terapêutica. Ouvir fenomenologicamente significa um "abrir-se para o outro, pré-verbal, experiencial" que instaura o contato genuíno (AMATUZZI, 1990, p. 96). O terapeuta atua como um interlocutor competente (ROMERO, 1999), silenciando a própria mente para compartilhar, sob a forma de questionamento reflexivo, o que foi apreendido. Ao estabelecer um campo co-criado permissivo e livre de juízos de valor (a prioris), diminuem-se as defesas do cliente. Contudo, a experiência evidenciou desafios práticos, como a necessidade constante de autorreflexão do terapeuta para não incorrer em posturas salvacionistas. Conclui-se que a Gestalt-Terapia não oferece resoluções mágicas, mas a disposição dialógica de "estar com" o cliente na relação Eu-Tu (BUBER, 2012). A prática no estágio reafirma que o acolhimento do sofrimento humano ocorre através de uma escuta cuidadosa e transformadora, sendo ela o verdadeiro motor da awareness e do contato autêntico.
Referências
AMATUZZI, M. M. O que é ouvir. Estudos de Psicologia, Campinas, v. 7, n. 2, p. 86–97, 1990.
BUBER, M. Eu e tu. São Paulo: Centauro Editora, 2012.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA (CFP). Carta de serviços sobre estágios e serviços-escola. Brasília, DF: CFP, 2013. Disponível em: https://site.cfp.org.br/publicacao/carta-de-servicos-sobre-estagios-e-servicos-escola/. Acesso em: 1 nov. 2025.
DUTRA, E. Considerações sobre as significações da psicologia clínica na contemporaneidade. Estudos de Psicologia, Natal, RN, v. 9, n. 2, p. 381–387, 2004.
PERLS, F. Gestalt-terapia explicada. São Paulo: Summus, 1977.
ROMERO, E. Neogênese: o desenvolvimento pessoal mediante psicoterapia. São José dos Campos: Novos Horizontes Editora, 1999.