Não foi por acaso

Escrevendo e tornando-se gestalt-terapeuta

Autores

  • Larissa Machado Queiroz

Palavras-chave:

Escrita afetuosa, Formação, Gestalt-terapia, Ajustamento criativo, Awareness

Resumo

Introdução: Tornar-se gestalt-terapeuta não se restringe à apreensão de conceitos teóricos: é uma transformação vivida no corpo, no campo e nos afetos durante a formação. Nesse percurso, a escrita revela-se via de integração entre experiência e teoria, espaço de elaboração e ressignificação das vivências cotidianas. Compreende-se por escrita afetuosa um modo de escrever livre e não-diretivo — que dá vazão àquilo que emerge do corpo, da memória e dos afetos, sem se prender a uma estrutura lógica prévia (HOLANDA, 2018), aproximando-se do que a literatura descreve como fluxo de consciência (ARAUJO; HONORATO, 2017; LISPECTOR, 2015). Essa forma de escrever encontra aporte em conceitos centrais da Gestalt-terapia (GT): a dinâmica de figura e fundo, pela qual um dado se destaca sobre um conjunto de vivências e excitamentos anteriores; a awareness, tomada de consciência sensível do que se vive no momento presente; e o ajustamento criativo, resposta singular que cada organismo constrói diante das condições de uma situação (PERLS; HEFFERLINE; GOODMAN, 1997; MÜLLER-GRANZOTTO; MÜLLER-GRANZOTTO, 2007). Juntos, esses três conceitos oferecem as lentes pelas quais a escrita, neste trabalho, deixa de ser mero registro para se tornar uma experiência. Objetivo: Refletir sobre o valor da escrita afetuosa e não-diretiva como ferramenta de integração da experiência vivida durante o processo de formação em GT. Metodologia: Trata-se de uma pesquisa qualitativa de abordagem fenomenológica (GIL, 2010; MODESTO; BRISOLA, 2026), desenvolvida segundo o método heurístico — na qual a experiência da própria pesquisadora se torna centro da investigação, culminando frequentemente numa síntese criativa expressa por meio da escrita (VIAN JR., 2008) —, no qual a experiência vivida é compreendida como campo legítimo de produção de sentidos e conhecimentos, desde que descrita, refletida e colocada em diálogo com a teoria. O estudo foi realizado a partir da minha própria trajetória formativa, concluída em um instituto de formação em GT localizado em Florianópolis-SC, entre 2020 e 2022. O material analisado é composto por produções escritas autorais, redigidas ao longo dos anos de formação, incluindo resumos de módulos, textos afetivos e registros reflexivos produzidos após aulas, workshops e vivências. A leitura desse material foi realizada à luz dos conceitos de awareness, contato e ajustamento criativo, buscando identificar de que modo a escrita operava como espaço de integração entre teoria e vivência. Resultados e Discussões: A análise revelou que a escrita, ao longo da formação, não funcionava como mero registro de conteúdo estudado, mas como um processo de costura entre teoria, corpo e prática. Um exemplo é um texto escrito para um dos módulos, no qual parto da escolha espontânea das cores de um esmalte, associada, de forma deliberada, mas não consciente, às cores de objetos do meu consultório, para refletir sobre a intencionalidade que orienta nossas escolhas sem passar pela consciência clara no momento do agir. A escrita, nesse caso, funcionou como o espaço onde um acontecimento banal emergiu como figura. Essa produção escrita não permanecia restrita à experiência privada: era endereçada à docente responsável, retornando com respostas que reconheciam sua dimensão criativa e sensível, sugerindo que a escrita constituía um campo para o estabelecimento da fronteira de contato, na medida em que mediava o encontro entre a experiência vivida, sua elaboração e o olhar do outro. Esses achados dialogam com a compreensão gestáltica de que o processo formativo se sustenta na experiência vivida, e não apenas na aquisição de conceitos, ela constituía um espaço de elaboração em que teoria e experiência se costuravam. Esse resultado converge com discussões sobre a escrita como prática reflexiva e como recurso de formação profissional em áreas do cuidado — como demonstra, em outro campo profissional, o uso da síntese criativa por meio da poesia na investigação heurística da própria trajetória docente (VIAN JR., 2008) —, que apontam a escrita afetuosa como instrumento legítimo de produção de sentido, ainda pouco explorado na formação clínica. Conclusões: Conclui-se que a escrita afetuosa, mais do que uma ferramenta na formação em GT, constitui um modo de integrar experiência, teoria e corpo. Os achados sugerem a relevância de espaços formativos que legitimem essa forma de (se) escrever como parte do percurso de tornar-se gestalt-terapeuta, contribuindo para a GT ao evidenciar a escrita como recurso de integração que pode ser incorporado tanto à formação quanto à prática clínica.

Referências

ARAUJO, S. F.; HONORATO, A. F. Para além dos Princípios de Psicologia: evolução e sentido do projeto psicológico de William James. Psicologia em Pesquisa, v. 11, n. 1, p. 5-13, 2017.

GIL, Antônio Carlos. O projeto na pesquisa fenomenológica. In: SEMINÁRIO INTERNACIONAL DE PESQUISA E ESTUDOS QUALITATIVOS, 4., 2010, Rio Claro. Anais [...]. Rio Claro: UNESP, 2010.

HOLANDA, Ana. Como se encontrar na escrita: o caminho para despertar a escrita afetuosa em você. Rio de Janeiro: Rocco, 2018.

LISPECTOR, Clarice. Um sopro de vida: pulsações. Rio de Janeiro: Rocco, 2015 [1978].

MODESTO, Daniela M.; BRISOLA, Elizabeth B. V. “Por essa não esperava!”: a experiência de cuidar de um familiar em cuidados paliativos. Phenomenology, Humanities and Sciences, v. 7, n. 1, p. 104-115, 2026.

MÜLLER-GRANZOTTO, Marcos José; MÜLLER-GRANZOTTO, Rosane Lorena. Fenomenologia e Gestalt-terapia. São Paulo: Summus, 2007.

PERLS, Frederick S.; HEFFERLINE, Ralph F.; GOODMAN, Paul. Gestalt-terapia. São Paulo: Summus, 1997.

VIAN JR., Orlando. Experiências vividas no planejamento de cursos instrumentais: percursos de transformação numa abordagem heurístico-fenomenológico-hermenêutica. Revista Brasileira de Linguística Aplicada, v. 8, n. 2, p. 465-488, 2008.

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Publicado

2026-10-30