Gestalt-terapia e crianças ouvidoras de vozes na atenção psicossocial
Palavras-chave:
Gestalt-terapia, Ouvidores de vozes, Saúde mental infanto-juvenil, Atenção PsicossocialResumo
Introdução: A experiência de ouvir vozes na infância ainda é frequentemente compreendida a partir de uma perspectiva psicopatológica, favorecendo diagnósticos precoces e processos de medicalização. Em contraposição, o Movimento Internacional dos Ouvidores de Vozes propõe compreender esse fenômeno como uma experiência humana singular, cuja construção de sentidos depende da história de vida, das relações e do contexto sociocultural (CARDANO, 2018). Nessa direção, a Gestalt-terapia oferece contribuições importantes ao compreender o sujeito como constituído na relação com seu campo organismo-ambiente e ao privilegiar a experiência presente e o encontro dialógico como fundamentos do cuidado (PERLS; HEFFERLINE; GOODMAN, 1997; YONTEF, 1998). No contexto da atenção psicossocial, tais pressupostos aproximam-se das práticas que valorizam a singularidade, a autonomia e a participação dos usuários na construção de seus processos de cuidado (BRASIL, 2014). Objetivo: Refletir sobre as contribuições da Gestalt-terapia na coordenação de grupos com crianças ouvidoras de vozes em um dispositivo público de saúde mental infantojuvenil, discutindo suas contribuições para os modos de subjetivação produzidos no contexto da atenção psicossocial. Metodologia: Trata-se de um relato de experiência desenvolvido entre os anos de 2023 e 2025 em um serviço público especializado em saúde mental infantojuvenil do sul do Rio Grande do Sul. Os grupos foram coordenados por psicóloga e psicopedagoga, com encontros semanais voltados a crianças que relatavam experiências de ouvir vozes associadas a sofrimento ou prejuízos em seu cotidiano. Embora a intervenção não tenha sido originalmente planejada a partir da Gestalt-terapia, a análise da experiência foi construída posteriormente em diálogo com seus referenciais fenomenológicos e existenciais, articulando-os às contribuições do Movimento dos Ouvidores de Vozes e aos princípios da atenção psicossocial. Resultados e discussões: Ao longo dos encontros, observou-se que a suspensão de interpretações diagnósticas e a abertura para a experiência permitiram que as crianças construíssem novos significados para suas vivências. Conforme propõe Cardano (2018), compreender as vozes a partir da narrativa do próprio sujeito desloca o foco da eliminação do sintoma para a construção compartilhada de sentidos. Essa postura mostrou-se próxima da atitude fenomenológica descrita por Perls, Hefferline e Goodman (1997), na qual o terapeuta privilegia a experiência tal como ela se apresenta, favorecendo processos de awareness em vez de interpretações previamente estabelecidas. O grupo constituiu um campo relacional no qual as crianças passaram a compartilhar estratégias de enfrentamento, reconhecer experiências semelhantes e fortalecer vínculos entre si, produzindo efeitos positivos também nas relações familiares e escolares. Sob a perspectiva gestáltica, o contato autêntico estabelecido entre os participantes ampliou possibilidades de ajustamento criativo diante das dificuldades vivenciadas (POLSTER; POLSTER, 2001). A atitude dialógica da coordenação favoreceu o reconhecimento da criança como protagonista de seu processo de cuidado, aspecto igualmente enfatizado por Yontef (1998), ao compreender a relação terapêutica como um encontro entre sujeitos. Para Ginger e Ginger (1995), a Gestalt-terapia compreende o desenvolvimento humano como um processo construído nas relações estabelecidas com o ambiente, o que reforça a potência do trabalho grupal em dispositivos públicos de saúde mental. Nessa perspectiva, a experiência demonstrou aproximações entre os fundamentos da Gestalt-terapia e os princípios da atenção psicossocial, ambos comprometidos com práticas que reconhecem a singularidade dos sujeitos e problematizam processos de patologização. Conclusões: A experiência analisada evidencia que a atitude clínica gestáltica oferece importantes contribuições para a atenção psicossocial à infância ao sustentar práticas baseadas na escuta, no diálogo e na valorização da experiência singular. Mais do que buscar a supressão de sintomas, a intervenção grupal favoreceu processos de awareness, pertencimento e construção compartilhada de sentidos, ampliando possibilidades de participação social e autonomia das crianças. O diálogo entre Gestalt-terapia, Movimento dos Ouvidores de Vozes e atenção psicossocial mostra-se promissor para a construção de práticas clínicas comprometidas com modos de subjetivação menos patologizantes e mais coerentes com os princípios do SUS.
Referências
BRASIL. Ministério da Saúde. A atenção psicossocial a crianças e adolescentes no SUS: tecendo redes para garantir direitos. Brasília: Ministério da Saúde, 2014.
CARDANO, Mario. O movimento internacional de ouvidores de vozes: as origens de uma tenaz prática de resistência. Journal of Nursing and Health, v. 8, n. esp., e188405, 2018.
FERNANDES, Henrique Campagnollo Dávila; ZANELLO, Valeska. O grupo de ouvidores de vozes: dispositivo de cuidado em saúde mental. Psicologia em Estudo, v. 23, e39076, 2018.
GINGER, Serge; GINGER, Anne. Gestalt: uma terapia do contato. São Paulo: Summus, 1995.
KANTORSKI, Luciane Prado et al. Grupos de ouvidores de vozes: estratégias e enfrentamentos. Saúde em Debate, v. 41, n. 115, p. 1143-1155, 2017.
PERLS, Frederick S.; HEFFERLINE, Ralph; GOODMAN, Paul. Gestalt-terapia. 2. ed. São Paulo: Summus, 1997.
POLSTER, Erving; POLSTER, Miriam. Gestalt-terapia integrada. São Paulo: Summus, 2001.
YONTEF, Gary M. Processo, diálogo e awareness: ensaios em Gestalt-terapia. São Paulo: Summus, 1998.