Gestalt-cinematografia
Uma análise do filme Ilha do Medo
Palavras-chave:
Ajustamento criativo, Cinema, Figura-fundo, Gestalt-terapia, PsicoseResumo
INTRODUÇÃO: O enredo desenvolvido por Martin Scorsese em Ilha do Medo, aborda um cenário de traumas e ajustamentos disfuncionais de Andrew Laeddis (Teddy Daniels), o qual experiência um teatro terapêutico elaborado por funcionários do Hospital Psiquiátrico Ashecliffe. Delineando um paralelo com a atual análise, a Gestalt-Terapia compreende tais sinais do personagem como o self em ajustamento psicótico, pois, os delírios ganham nitidez e alta relevância para o sujeito. Engloba, juntamente, a percepção como dinâmica, onde o self opera na construção entre figura e fundo durante a experiência de contato. A partir dessa premissa, Andrew transfigura traumas do passado em “fundo”, e uma realidade modificada em “figura”, assim, reorganizando dados do ambiente e produzindo o que não consegue articular. Desse modo, esta pesquisa tem como finalidade analisar aspectos da obra cinematográfica de Scorsese, construindo analogias inerentes com a Gestalt-terapia e o ajuste criativo. OBJETIVOS: Analisar a dinâmica psicológica do protagonista do filme Ilha do Medo sob a perspectiva da Gestalt-terapia, e contextualizar os conceitos da relação figura-fundo e ajustamento criativo a partir da literatura sistemática. METODOLOGIA: O presente estudo caracteriza-se como pesquisa bibliográfica e análise documental de natureza qualitativa. Foram revisadas bases de dados como SciELO e PePSIC, com os descritores: figura-fundo; Gestalt-terapia; psicose; ajustamento criativo. Em seguida, realizou-se análise interpretativa da obra cinematográfica Ilha do Medo (Scorsese, 2010), articulando o filme à fundamentação teórica apresentada. O referencial teórico baseia-se também na obra Gestalt-Terapia, associando os conceitos discutidos por Perls, Hefferline e Goodman (1997). O processo analítico envolveu: (a) revisão dos conceitos de figura-fundo, ajustamento criativo e ajustamento psicótico; e (b) interpretação fenomenológica das cenas articuladas ao referencial teórico adotado. Os materiais levantados foram utilizados para sustentar a construção de uma leitura fenomenológica da experiência de Andrew Laeddis à luz da Gestalt-terapia. RESULTADOS E DISCUSSÕES: A análise evidencia que o fundo no ajustamento psicótico vivenciado por Andrew é totalmente preenchido por alucinações e delírios. Observa-se que ele não abandona a realidade, e sim a recria, utilizando-a como matéria-prima para construir a narrativa do Detetive Teddy Daniels. Evidencia-se que a ilha, o hospital e os pacientes existem, e a partir disso, o personagem constrói uma figura necessária para sustentar a culpa por não ter evitado a morte dos filhos, e por ter sido o culpado pela morte da esposa que vivia em profundo sofrimento psíquico. Tal dinâmica, conforme apontam Ribeiro (1985) e Tenório (2003), contrasta com o ajustamento saudável, compreendido como a capacidade de suportar e transformar as figuras, estabelecendo contato pleno com o mundo interno e externo e sustentando o processo de autoatualização do self. Ressalta-se, nesse sentido, a relação organismo/ambiente experienciada pelo protagonista: apesar do ajustamento do tipo psicótico, ele não vive uma realidade isolada, pois continua a responder ao campo real. Ademais, Andrew utiliza os elementos concretos do campo para construir o delírio (os pacientes viram suspeitos, os médicos viram agentes e o hospital vira cenário de investigação) o que evidencia que o vínculo organismo/ambiente nunca se rompe, mesmo na psicose. Diante disso, no ajustamento psicótico esse vínculo é insubstituível e imprescindível para sustentar o campo, a diferença em relação ao ajustamento criativo saudável está na forma de processar esse campo, e não na relação em si, constituindo a maneira como o sujeito experiencia o mundo (PERLS; HEFFERLINE; GOODMAN, 1997). Assim, a concordância entre as pesquisas relacionadas demonstram que o adoecimento de Andrew, sob a ótica gestáltica, configura-se como uma discordância relacional na qual o bloqueio perceptivo atua como uma estratégia necessária de proteção do self. Compreende-se que o ajustamento do tipo psicótico não isola o sujeito da realidade, mas representa uma tentativa dinâmica de reorganização de dados do campo, mesmo diante de demandas ou traumas severos, os quais não possuem espontaneidade para articular-se. O sujeito entende o mundo como incoerente de sentidos, onde seu “fundo” precisa ser preenchido, compensado, nesse caso, por alucinações e delírios. CONCLUSÃO: Portanto, pode-se destacar que Andrew opera um ajustamento criativo de caráter psicótico diante da incapacidade do self de assimilar sua realidade sem entrar em colapso, evidenciando que mesmo no limite do sofrimento psíquico, o vínculo organismo/ambiente permanece preservado, sustentando uma figura rígida e imutável, constituindo uma Gestalt aberta e inacabada.
Referências
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