Gestalt-terapia, reforma psiquiátrica

Saúde mental em liberdade

Autores

  • Ana Luisa da Silva Farias
  • Neusa Carolina Leite Lima
  • Nena Barbosa Teixeira
  • Maria Teresa Miranda de Alencar
  • Rafaela Pereira Benjamim

Palavras-chave:

Gestalt-terapia, Reforma Psiquiátrica, Luta Antimanicomial, Saúde Mental

Resumo

A Reforma Psiquiátrica brasileira representa uma das transformações mais significativas no campo da saúde mental, ao deslocar o cuidado de uma lógica asilar para uma perspectiva comunitária (Amarante, 1998; Silva et al., 2012). Consolidada juridicamente pela Lei nº 10.216/2001, essa reforma não se restringiu à crítica ao hospital psiquiátrico como estrutura física, mas propôs uma revisão dos paradigmas que sustentam o saber psiquiátrico, reconhecendo o sujeito em sofrimento como portador de direitos (CFP, 2018). Contudo, esse processo vem enfrentando retrocessos, evidenciados pela ampliação do financiamento a dispositivos que reproduzem lógicas manicomiais sob novas roupagens (Cruz, Gonçalves e Delgado, 2020; Santos et al., 2024). Diante disso, cabe interrogar os processos formativos em Psicologia: em que medida a Gestalt-terapia pode contribuir para uma prática clínica e comunitária comprometida com os princípios antimanicomiais e a desinstitucionalização? Portanto, como objetivo visa-se analisar as aproximações da Gestalt-terapia com a Reforma Psiquiátrica e a luta antimanicomial, bem como suas contribuições para a formação de psicólogos comprometidos com a desinstitucionalização e o cuidado comunitário em saúde mental. A construção metodológica trata-se de estudo teórico-reflexivo de natureza qualitativa, desenvolvido por revisão bibliográfica narrativa, que consultou obras clássicas e contemporâneas da Gestalt-terapia, produções sobre a Reforma Psiquiátrica e a luta antimanicomial, além de documentos institucionais relevantes. A análise orientou-se pela identificação de convergências epistemológicas e éticas entre a abordagem gestáltica e a atenção psicossocial. A crítica ao modelo manicomial possui raízes históricas antigas: Foucault (1978), ao reconstituir o tratamento destinado à loucura na Idade Clássica, demonstrou que o isolamento do sujeito em sofrimento psíquico constitui uma construção histórica e política que emerge na modernidade, associando a loucura ao perigo e à improdutividade. O manicômio, nessa perspectiva, opera pela exclusão, pela interdição da palavra e pela anulação da singularidade. Conforme Amarante (1996), a derrocada do manicômio emergiu da constatação, por nomes como Franco Basaglia e Frantz Fanon, dos horrores vivenciados nesses espaços. No Brasil, esses ideais chegaram junto ao processo de redemocratização no final da década de 1970, de modo que a luta antimanicomial consolidou-se propondo a substituição do modelo asilar por novos modos de cuidar em liberdade, que restituam a contratualidade social e a cidadania (Silva et al., 2012; Amarante, 1998). Nesse horizonte, a teoria gestáltica apresenta potencial de articulação com os princípios antimanicomiais. Desde Gestalt Therapy (Perls; Hefferline; Goodman, 1951/1997), a abordagem incorpora uma dimensão política crítica ao "Sistema Organizado", entendido como os aparatos institucionais que concentram poder e limitam a espontaneidade, produzindo sofrimento e alienação (Belmino, 2014). Por essa perspectiva, o sofrimento humano decorre de uma organização social que restringe a criatividade e os vínculos comunitários, antecipando, em termos psicológicos, os princípios político-institucionais defendidos pela Reforma Psiquiátrica. Com isso, a teoria do self gestáltica compreende a experiência humana como um sistema de contatos na fronteira organismo/ambiente, entendendo o sofrimento como fenômeno relacional, e não como patologia intrapsíquica isolada, deslocando o foco da doença para a experiência vivida e a singularidade do sujeito (Perls; Hefferline; Goodman, 1951/1997; Hupsel e Schnitman, 2017). Diante dessa perspectiva, articula-se ao conceito de sofrimento ético-político e antropológico, que evidencia os efeitos dos dispositivos de poder sobre os laços de pertencimento, compreendendo tais manifestações como ajustamentos criadores e formas legítimas de resistência em contextos hostis. Uma clínica gestáltica comprometida acolhe essas manifestações. (Müller-Granzotto e Müller-Granzotto, 2012). A influência de Paul Goodman reforça a dimensão político-social da Gestalt-terapia ao compreender o sofrimento humano como inseparável das condições sociais, valorizando a autonomia, o protagonismo e a inclusão social, em consonância com os princípios da Reforma Psiquiátrica (Perls; Hefferline; Goodman, 1951/1997). Contudo, Santos e Boccardi (2021) destacam a insuficiência de sistemas integralizados nos serviços públicos de saúde mental e a necessidade de fortalecer, na formação universitária, conteúdos sobre saúde coletiva, políticas públicas e desinstitucional. Assim, nota-se que a Gestalt-terapia oferece um arcabouço epistemológico e ético alinhado aos princípios da Reforma Psiquiátrica e da luta antimanicomial. Ao conceber o sofrimento como fenômeno relacional de campo e ao valorizar o ajustamento criador, a abordagem opõe-se à lógica manicomial e fortalece a autonomia do sujeito. Para que essa convergência se consolide, é fundamental integrar a dimensão político-comunitária à formação acadêmica e clínica em Psicologia, promovendo uma atuação ética, desinstitucionalizante e comprometida com os direitos humanos.

Referências

AMARANTE, P. Loucos pela vida: a trajetória da reforma psiquiátrica no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 1998.

AMARANTE, P. O homem e a serpente: outras histórias para a loucura e a psiquiatria. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 1996.

BELMINO, M. C. B. Fritz Perls e Paul Goodman: duas faces da Gestalt-terapia. Fortaleza: Premius, 2014.

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA (CFP). Relatório da inspeção nacional em comunidades terapêuticas. Brasília: CFP, 2018.

CRUZ, N. F. O.; GONÇALVES, R. W.; DELGADO, P. G. G. Retrocesso da reforma psiquiátrica: o desmonte da política nacional de saúde mental brasileira de 2016 a 2019. Trabalho, Educação e Saúde, Rio de Janeiro, v. 18, n. 3, 2020.

FOUCAULT, M. História da loucura na Idade Clássica. São Paulo: Perspectiva, 1978.

HUPSEL, T. M.; SCHNITMAN, L. V. Psicologia da Saúde: da atenção primária à atenção hospitalar. Salvador: Sanar, 2017.

MÜLLER-GRANZOTTO, M. J.; MÜLLER-GRANZOTTO, R. L. Clínicas gestálticas: sentido ético, político e antropológico da teoria do self. São Paulo: Summus, 2012.

PERLS, F. S.; HEFFERLINE, R.; GOODMAN, P. Gestalt-terapia. São Paulo: Summus, 1997. [Publicado originalmente em 1951].

SANTOS, A. N. S. et al. Os novos manicômios: contra a reforma psiquiátrica, a mercantilização da loucura e a ascensão das comunidades terapêuticas no Brasil. Caderno Pedagógico, v. 21, n. 12, 2024.

SANTOS, C. C.; BOCCARDI, D. Clínicas gestálticas nos serviços públicos de saúde e de assistência social. In: BOCCARDI, D. (org.). Gestalt-terapia e sociedade. São Paulo: LiberArs, 2021. p. 125 – 144.

SILVA, P. B. et al. Gestalt-Terapia e cuidado em saúde mental: Um diálogo possível e necessário. Congressos IGT de Gestalt-Terapia-Anais (ISSN 2318-3977), 2012.

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Publicado

2026-10-30