Enfrentamento da perda por vínculos laborais – contribuições da Gestalt terapia
Palavras-chave:
Luto, Perdas, Trabalho, Gestalt-terapiaResumo
As contribuições da Gestalt-terapia no enfrentamento do luto por perda de vínculos laborais são muito ricas quando se fala em termos de compreensão emocional e psicosocial e intervenção psicológica dos indivíduos afetados (PEREIRA, 2024). O rompimento de um vínculo laboral se trata de um momento de ajuste a uma nova vida sem o antigo trabalho. Esta soma de novas informações pode acabar desencadeando um sofrimento significativo, ou seja, o luto pela perda. Um trabalho sobre as contribuições da Gestalt no enfrentamento do luto por perda de vínculos laborais é importante porque oferece uma visão abrangente e sensível sobre como essa abordagem terapêutica entende esse processo e como pode auxiliar essas pessoas (PEREIRA, 2024). Levando em consideração a experiência da vida adulta, segundo Dejours (2007 apud GEMELLI; OLTRAMARI, 2020), trabalhar é, antes de tudo, uma relação do sujeito consigo mesmo, sendo por meio da atividade de trabalho que ele se põe à prova com o mundo. De acordo com Campos e Saraiva (2014, p. 43), “a demissão assume o caráter de morte de uma identidade profissional, de pertença a um grupo e de compartilhamento de valores, de uma trajetória de vida”. Assim como em qualquer outra perda significativa, o luto por perda de vínculos laborais pode acarretar diversos sentimentos, como tristeza, raiva, apatia, saudade e ansiedade (WORDEN, 2013), sendo manifestações esperadas no processo de elaboração da perda. Entretanto, quando esse processo não ocorre de forma adequada, o sujeito poderá desenvolver sintomas incapacitantes para a vida cotidiana (ESCUDEIRO, 2012). A Gestalt-terapia nasce como uma proposta psicoterapêutica que compreende o sujeito em sua totalidade, a partir de uma perspectiva fenomenológica e de campo, entendendo a correlação entre organismo e ambiente. De acordo com Müller-Granzotto e Müller-Granzotto (2012), o luto é compreendido como uma vulnerabilidade da função personalidade, na medida em que a perda do vínculo laboral não apenas priva o sujeito de uma fonte de renda, mas também abala sua identidade, parte integrante de sua história e de quem ele é. O sofrimento está sempre associado à vivência de uma perda, conflito ou exclusão, sendo o saldo da ausência de uma imagem social pela qual nos sentiríamos incluídos, aceitos, funcionais e respeitados. Do ponto de vista fenomenológico, o luto é uma vivência experienciada após uma situação de perda significativa, típica em situações de transformação e mudança abrupta nas formas de ser (FREITAS, 2013). A terapia gestáltica oferece um espaço seguro para explorar os afetos e encontrar novas formas de significado e identidade, permitindo que o sujeito fale sobre o objeto perdido como parte do processo de elaboração e ressignificação. A resolução desses conflitos requer que o paciente confronte pensamentos e sentimentos dos quais vem se esquivando, sendo o terapeuta responsável por fornecer o suporte necessário e oferecer ao paciente a permissão para viver o luto (WORDEN, 2013). Levando em consideração o papel significativo que o trabalho tem, é preciso entender que, para que o sujeito consiga recuperar a sua autonomia, ele precisa passar por um processo de reconstrução da própria identidade. Consulente e terapeuta vão, juntos, encontrar novos significados para a vida – quem é esse consulente quando não opera seu papel de trabalhador? Este pode ser o começo de um processo para que o mesmo desenvolva segurança interna e se reconheça, com possibilidade de se erguer e pensar em possibilidades de futuro. Segundo Freitas (2013), o luto não termina com uma resolução, mas com a incorporação deste evento na vida do enlutado, de tal modo que possa seguir a vida adiante com uma conexão contínua, porém nova, diante da perda. O trabalho desempenha um papel fundamental na formação de quem somos e a perda de vínculos laborais não é apenas a ausência de uma fonte de renda, mas uma ruptura na narrativa de vida. Ao criar um espaço seguro para explorar os sentimentos e os significados associados à perda, a Gestalt-terapia permite que o indivíduo encontre novas formas de se perceber e se relacionar com o mundo, possibilitando a construção de novos significados e a retomada da autonomia diante de sua própria experiência (PEREIRA, 2024).
Referências
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FREITAS, Joanneliese de Lucas. Luto e Fenomenologia: uma Proposta Compreensiva. Revista da Abordagem Gestáltica: Phenomenological Studies, vol. XIX, núm. 1, 2013.
GEMELLI, C. E., e OLTRAMARI, A. P. Voluntariado e formação da identidade: reflexões a partir da Psicodinâmica do Trabalho. Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, 20 (1), p. 956-962, 2020.
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PEREIRA, Janaina Virgínia. Enfrentamento da Perda de Vínculos Laborais: Contribuições da Gestalt-terapia. In: ESCUDEIRO, Aroldo (org.). Perdas Irreparáveis: temas em Tanatologia. Itaitinga, CE: LeMus4 Editora, 2024. p. 279-289.
WORDEN, J. William. Aconselhamento do Luto e Terapia do Luto: um manual para profissionais da saúde mental - São Paulo: Roca, 2013.