Intervenção lúdica sobre bullying

Um relato de experiência gestáltico

Autores

  • Alice Steele Santos Escada UFSC
  • Nathan de Brito Sell UFSC

Palavras-chave:

Gestalt-terapia, Bullying, Ludicidade, Contexto Escolar

Resumo

O bullying caracteriza-se por agressões intencionais e repetidas, de natureza psicológica, verbal ou física, praticadas em uma relação desigual de poder e que provocam sofrimento à vítima (CARDONHA; LIMA, 2019). No contexto escolar, esse fenômeno constitui um desafio relacional com repercussões para a saúde mental e o desenvolvimento de crianças e adolescentes. Diante dessa problemática, este trabalho teve como objetivo relatar uma intervenção psicopedagógica sobre bullying realizada em uma escola pública da Grande Florianópolis e analisar essa experiência à luz da Gestalt-terapia, considerando os conceitos de contato, awareness, experimentação (PERLS; HEFFERLINE; GOODMAN, 1997/1951), bem como a relação dialógica (HYCNER; JACOBS,1997).Trata-se de um relato de experiência, de natureza qualitativa e interventiva, fundamentado na Gestalt-terapia. A dinâmica utilizou recursos lúdicos, como um tabuleiro humano desenhado com giz no chão da sala, um dado confeccionado com caixa de leite e cartas contendo situações-problema e propostas de reflexão. As cartas foram organizadas em cartas de ação, com propostas de movimento e interação corporal, e cartas de conteúdo, compostas por perguntas reflexivas. A intervenção foi realizada com duas turmas de aproximadamente 30 estudantes cada, com média de idade de 10 anos. Os resultados evidenciaram que a proposta de intervenção participativa, voltada ao protagonismo dos estudantes, favoreceu a emergência espontânea das dinâmicas do campo grupal, tornando visíveis padrões relacionais associados ao bullying em ambas as turmas. No início da atividade, observavam-se padrões de exclusão, formação de subgrupos e isolamento de alguns estudantes. A reorganização dos grupos pelos mediadores ampliou as possibilidades de contato e promoveu novas formas de interação entre os participantes. As perguntas presentes nas cartas de conteúdo, associadas à mediação dos facilitadores, estimularam discussões reflexivas que ampliaram a compreensão dos estudantes acerca do bullying como um fenômeno complexo, influenciado por múltiplos fatores. A profundidade das discussões foi construída a partir das respostas, experiências e reflexões compartilhadas pelos próprios estudantes. Em uma das turmas, emergiu a compreensão de que colegas que praticam bullying também poderiam vivenciar situações de sofrimento em outros contextos, como o ambiente familiar, evidenciando uma ampliação da compreensão do fenômeno para além da dicotomia entre vítima e agressor. Observou-se, ainda, que o suporte oferecido pelos mediadores, por meio da leitura das cartas, do incentivo à participação de todos e da utilização de cartas de ação envolvendo movimentos corporais e construções coletivas, possibilitou maior engajamento de estudantes inicialmente mais inseguros nas discussões. Esses achados reforçam, à luz da Gestalt-terapia, a importância da relação dialógica, do protagonismo dos estudantes e da experimentação como elementos favorecedores dos processos de contato, awareness e construção coletiva de sentidos sobre o bullying. Conclui-se que a intervenção lúdica, analisada à luz da Gestalt-terapia, favoreceu a reflexão crítica sobre o bullying e ampliou as possibilidades de interação entre os estudantes, contribuindo para a construção de relações mais inclusivas e participativas no contexto escolar. Além disso, a experiência evidencia o potencial da ludicidade como recurso para ações de promoção da saúde mental e prevenção do bullying no ambiente escolar.

Referências

CARDONHA, A.; LIMA, D. M. A. Bullying: uma perspectiva de intervenção com o agressor sob enfoque da gestalt-terapia. IGT na Rede, v. 15, n. 29, 2019. https://doi.org/10.5281/zenodo.15058521.

HYCNER, R.; JACOBS, L. Relação e cura em Gestalt-terapia. São Paulo: Summus, 1997.

PERLS, F.; HEFFERLINE, R.; GOODMAN, P. Gestalt-terapia: excitação e crescimento da personalidade humana. Tradução de L. C. F. Frazão. São Paulo: Summus, 1997.

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Publicado

2026-10-30