Ler-se, escrever-se

Escrita afetuosa para além da formação em Gestalt-terapia

Autores

  • Larissa Machado Queiroz

Palavras-chave:

Escrita afetuosa, Clube de leitura, Gestalt-terapia, Fundo de vividos, Ajustamento criativo

Resumo

Introdução: A escrita afetuosa e não-diretiva, experimentada em um processo de formação em Gestalt-terapia (GT), pode se estender a outros campos de encontro, ampliando suas possibilidades para além desse contexto. Compreende-se aqui por escrita afetuosa e não-diretiva uma escrita livre de tema ou forma predefinidos, que dá vazão a afetos, corpo, memória e sensações (HOLANDA, 2018). Um conceito central para essa reflexão é o de espaço vital, entendido como o campo relacional que integra indivíduo e ambiente em uma situação vivida, podendo ser individual ou coletivo. Orientam ainda esta discussão os conceitos de fundo de vividos, aquilo que a experiência acumulada oferece como orientação ao presente ainda que não conscientemente, e de ajustamento criativo, a resposta singular construída diante de uma situação (PERLS; HEFFERLINE; GOODMAN, 1997; MÜLLER-GRANZOTTO; MÜLLER-GRANZOTTO, 2007). Por fim, a biblioterapia, prática que utiliza a leitura e a escrita como recursos de cuidado e elaboração da experiência (CALDIN, 2010), oferece um campo relevante para pensar clubes de leitura e escrita como dispositivos de produção de sentido. Objetivo: Investigar se a potência da escrita afetuosa, reconhecida durante um processo de formação em GT, se sustenta em outros campos de encontro, como clubes de leitura e escrita voltados ao público geral. Metodologia: Trata-se de uma pesquisa qualitativa, como relato de experiência de abordagem fenomenológica (GIL, 2010), fundamentado na atuação como facilitadora de clubes de leitura e escrita voltados ao público geral, realizados presencialmente em Palmas, Tocantins, ao longo de mais de quinze encontros desde 2025. Os clubes tiveram como proposta a leitura compartilhada de obras literárias, seguida de conversa em grupo e, ao final de cada encontro, um convite à escrita por meio de uma pergunta norteadora — diretiva apenas no gesto de abrir a escrita, não no conteúdo ou na forma da resposta —, vivida também por mim como facilitadora, sobre o que ficava ressoando a partir do que foi lido e conversado. O material analisado compreende minha própria produção escrita nesses encontros, somada à observação fenomenológica, de forma geral e não identificável, das diferentes formas de escrita produzidas pelo grupo, sem análise de casos individuais. Resultados e Discussões: Em um dos encontros, dedicado à leitura de uma obra que emprega o fluxo de consciência como recurso narrativo, a escrita fez emergir a imagem de um animal levado pelo vento, posteriormente reconhecida como expressão de uma urgência ainda sem nome. De modo semelhante, observou-se que cada participante encontrava formas singulares de escrita, em prosa, versos, palavras soltas ou perguntas, fazendo emergir figuras próprias a partir do contato entre a literatura, o campo grupal e o fundo de vividos de cada pessoa. Mais do que registrar experiências já conhecidas, a escrita parecia favorecer movimentos de elaboração e de integração de situações inacabadas, possibilitando que novos sentidos fossem produzidos durante o próprio ato de escrever. Esses resultados dialogam com a compreensão de que o self se constitui processualmente, em contato constante com o campo, e não como uma entidade fixa e isolada do ambiente (RODRIGUES, 2019). A diversidade de formas de escrita observada no grupo sustenta a ideia de que a escrita afetuosa não impõe um molde: ela acolhe a singularidade de cada pessoa, permitindo que seu fundo de vividos encontre expressão própria. A aproximação entre literatura e escrita, observada especialmente nos encontros voltados a obras marcadas pelo fluxo de consciência, também dialoga com discussões sobre biblioterapia (CALDIN, 2010), que apontam o uso da leitura e da escrita como recursos de cuidado, sugerindo que espaços de leitura coletiva podem funcionar como dispositivos de contato e de produção de awareness, para além dos contextos tradicionais de clínica e formação. Conclusões: Conclui-se que a escrita afetuosa e não-diretiva, vivida inicialmente na formação e posteriormente compartilhada em clubes de leitura e escrita, confirma e amplia uma potência já documentada em experiências anteriores de clubes de leitura na GT (GALHARDO; PEREIRA, 2016), sustentando-se também em espaços coletivos abertos ao público geral, num formato contínuo e voltado à escrita afetuosa. Essa constatação contribui para a GT ao indicar os clubes de leitura e escrita como dispositivo de produção de awareness e de contato em contextos comunitários, educativos e clínicos, reafirmando as formas de atuação da abordagem para além dos espaços tradicionais de atendimento e formação.

Referências

CALDIN, Clarice Fortkamp. Biblioterapia: um cuidado com o ser. São Paulo: Porto de Ideias, 2010.

GALHARDO, Diego Paulino; PEREIRA, Ondina Pena. O Clube do Livro Identidade: uma análise fenomenológica e gestáltica. Revista da Abordagem Gestáltica, v. 22, n. 1, p. 89-96, 2016.

GIL, Antônio Carlos. O projeto na pesquisa fenomenológica. In: SEMINÁRIO INTERNACIONAL DE PESQUISA E ESTUDOS QUALITATIVOS, 4., 2010, Rio Claro. Anais [...]. Rio Claro: UNESP, 2010.

HOLANDA, Ana. Como se encontrar na escrita: o caminho para despertar a escrita afetuosa em você. Rio de Janeiro: Rocco, 2018.

MÜLLER-GRANZOTTO, Marcos José; MÜLLER-GRANZOTTO, Rosane Lorena. Fenomenologia e Gestalt-terapia. São Paulo: Summus, 2007.

PERLS, Frederick S.; HEFFERLINE, Ralph F.; GOODMAN, Paul. Gestalt-terapia. São Paulo: Summus, 1997.

RODRIGUES, Hugo Elidio. Articulações entre o pensamento de Leibniz e Robine: a Gestalt-terapia inspirada através da dobra. Estudos e Pesquisas em Psicologia, Rio de Janeiro, v. 19, n. 4, p. 1067-1083, 2019.

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Publicado

2026-10-30