Dor e o diálogo

A supervisão em Gestalt-Terapia no hospital

Autores

  • Guilherme de Carvalho

Palavras-chave:

Gestalt-Terapia, Dor crônica, Atitude Dialógica, Psicologia Hospitalar, Reumatologia

Resumo

A area da Psicologia da Saúde é definida como qualquer aplicação dos métodos psicológicos nas situações do campo da saúde (Straub, 2014). Dessa forma, diz respeito ao cenário de trabalho de profissionais envolvidos na melhoria do bem estar e qualidade de vida das pessoas, e como fatores multidimensionais influenciam o processo de adoecimento (Teixeira, 2004). A psicologia hospitalar surge como campo de atuação no cenário da saúde e tem como principal alvo de interesse a minimização do sofrimento gerado pelo processo de hospitalização e adoecimento, atentando à qualidade da vivência pelos indivíduos (Angerami-Camon, 1995). As residências multiprofissionais em saúde (Brasil, 2006) constituem importante momento na formação profissional em psicologia em instituições hospitalares. Esse trabalho localiza a atuação de supervisão clínica oferecida em uma Residência Multiprofissional de um Hospital-Escola público situado na cidade do Rio de Janeiro (RJ), no setor de reumatologia, incluindo enfermaria e ambulatório. O objetivo do trabalho diz respeito a como a supervisão em Gestalt-Terapia auxilia o profissional residente a sustentar o encontro clínico diante da cronicidade. O diagnóstico reumatológico envolve inúmeros desafios impostos aos pacientes, como dor persistente, perda de funcionalidade, alterações identitárias, luto pelo corpo anterior, e muitas vezes a invisibilidade do sofrimento (Silva et al., 2021; Jaoude et al., 2022). No que concerne ao profissional residente, são comuns relatos de vivência de impotência, identificação com o sofrimento do paciente e o enfrentamento da tensão entre demandas institucionais e o tempo clínico. O estudo consistiu em uma revisão integrativa do cenário, buscando a relação entre as temáticas de psicologia hospitalar, psicologia da saúde, reumatologia e Gestalt-terapia. A partir do viés da supervisão clínico-institucional, observou-se uma lacuna na área. Entende-se a supervisão clínico-institucional da prática do psicólogo residente diante de pacientes com condições reumatológicas crônicas bastante relevante, utilizada como importante disparador para uma reflexão teórico-clínica. A partir da contribuição da Gestalt-Terapia para a atuação em hospitais (Estevão; Silveira, 2014; Lima, 2022), resgatamos a importância de alguns elementos estruturais na supervisão e no exercício prático do Gestalt-terapeuta no hospital, a saber: a relação com a corporeidade; atitude dialógica; presença e inclusão (Hycner, 1995). Diante da dor crónica, o profissional psicólogo não deve restringir-se ao trabalho com o corpo biológico, mas sim com o corpo vivido, que configura uma história (Merleau-Ponty, 1994). O diálogo EU-TU, enquanto encontro existencial, distancia-se da relação EU-ISSO, característica e natureza da atuação biomédica, na qual o corpo perde tal condição existencial de campo expressivo e passa a ser figura destacada de seu fundo de subjetividade (Buber, 2009; Freitas et al., 2010). Diante do adoecimento do outro, através de sua presença, o psicólogo é capaz de estabelecer um diálogo horizontal, aproximando-se ao máximo do centro da existência vivida pelo paciente, estando atento à experiência do mesmo e a sua própria (Yontef, 1998), no caso específico em contato com a dor e a limitação. Em consequência, a inclusão exige do profissional posicionamento diante da experiência de dor do outro, sem julgamento ou interpretação, de maneira a facilitar a ressignificação da condição existencial do paciente, abrindo novas possibilidades terapêuticas. O self do terapeuta passa a ser fundo para que a existência do paciente seja figura, ou seja, o terapeuta empresta sua existência e corporeidade para permitir maior expressão por parte do paciente. Refletir acerca da importância do contato enquanto diálogo promove o exercício da awareness diante da peculiaridade da doença reumatológica e de seus atravessamentos cotidianos e vivenciais. A supervisão em Gestalt-Terapia, quando orientada por uma atitude fenomenológica e dialógica, constitui um espaço de elaboração da experiência clínica do residente diante da cronicidade, favorecendo uma prática menos centrada na resolução do problema e mais comprometida com a sustentação do encontro e da singularidade da experiência de adoecimento.

Referências

ANGERAMI-CAMON, Waldemar Augusto. Psicologia hospitalar: teoria e técnica. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 1995.

BRASIL. Ministério da Educação. Portaria Interministerial nº 3, de 15 de março de 2016. Dispõe sobre a oferta de programas de Residência Multiprofissional em Saúde. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/residencias-em-saude/residencia-multiprofissional. Acesso em: 29 jul. 2026.

BUBER, Martin. Do diálogo e do dialógico. São Paulo: Perspectiva, 2009.

ESTEVÃO, Adriana Ludmila Pereira; SILVEIRA, Teresinha Mello da. A Gestalt-terapia no contexto hospitalar: compreensão, postura e possibilidades. Revista IGT na Rede, Rio de Janeiro, v. 11, n. 21, p. 282–296, 2014. ISSN 1807-2526. Disponível em: http://www.igt.psc.br/ojs. Acesso em: 29 jul. 2026.

FREITAS, Joann Eliese de Lucas. Reflexões sobre a relação psicoterapêutica: diálogos com Merleau-Ponty. Revista da Abordagem Gestáltica, Goiânia, v. 15, n. 2, p. 103–107, 2009. ISSN 1809-6867.

FREITAS, Joann Eliese de Lucas; STROIEK, Nutty Nadir; BOTIN, Débora. Gestalt-terapia e o diálogo psicológico no hospital: uma reflexão. Revista da Abordagem Gestáltica, Goiânia, v. 16, n. 2, p. 141–147, jul./dez. 2010. ISSN 1809-6867.

HYCNER, Richard. De pessoa a pessoa: psicoterapia dialógica. São Paulo: Summus, 1995.

JAOUDE, Thaísa de Carvalho; KIRCHNER, Luziane de Fátima; REIS, Maria de Jesus Dutra. Caracterização do perfil de pacientes atendidos em ambulatórios de reumatologia. In: SILVA, Patrício Francisco (org.). Atenção primária à saúde no Brasil: avanços, retrocessos e práticas em pesquisa. Ponta Grossa: Editora Científica Digital, 2022. v. 1. ISBN 978-65-5360-114-7.

LIMA, Natasha Cabral Ferraz. Práticas da Gestalt-terapia no contexto hospitalar: revisão sistemática de literatura. Gênero na Amazônia, Belém, n. 22, p. 27-43, jul./dez. 2022.

MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. São Paulo: Martins Fontes, 1994.

SILVA, Jean Paulo; CREPALDI, Maria Aparecida; BOUSFIELD, Andrea Barbará. Representações sociais e doenças crônicas no contexto familiar: revisão integrativa. Psicologia e Saúde, v. 13, n. 2, p. 125–140, abr./jun. 2021. ISSN 2177-093X.

STRAUB, Richard O. Psicologia da saúde: uma abordagem biopsicossocial. Porto Alegre: Artmed, 2014.

TEIXEIRA, José António Correia. Psicologia da saúde. Análise Psicológica, Lisboa, v. 22, n. 3, p. 441–448, 2004. ISSN 0870-8231.

YONTEF, Gary M. Processo, diálogo e awareness: ensaios em Gestalt-terapia. São Paulo: Summus, 1998.

Downloads

Publicado

2026-10-30