Contato e fantasia
Articulação entre Noites Brancas e Gestalt-terapia
Palavras-chave:
Gestalt-terapia, fantasia, contato, Noites Brancas, relações interpessoaisResumo
Noites Brancas (1848), de Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, é um romance único na vasta produção do autor, pois ilustra de maneira singular o papel da fantasia na existência e as dinâmicas de evitação de contato (DOSTOIÉVSKI, 2009). O protagonista, autoproclamado “sonhador”, habita mais o mundo interior do que a realidade concreta, isolado socialmente e sem estabelecer relações com os outros. O primeiro e único vínculo que desenvolve no livro é com Nastienka, o qual oportuniza um breve e intenso momento de conexão humana autêntica, repleta de emoção, profundidade e empatia. Cerca de 200 anos depois da publicação e de diferentes situações históricas, o romance permanece atual: é relevante compreender o modo como o fechamento do horizonte de possibilidades de contato influenciam o sujeito. O objetivo deste trabalho foi analisar a obra Noites Brancas (DOSTOIÉVSKI, 2009) e relacioná-la às noções centrais da Gestalt-terapia, especialmente a fantasia e o contato. A pesquisa foi exploratória do tipo bibliográfica, com método dedutivo. Conforme o procedimento metodológico, aplicou-se categorias de análise da Gestalt-terapia para a interpretação da obra de Dostoiévski. O tratamento de dados consistiu na técnica de análise do conteúdo. No romance, o sonhador relata suas fantasias, nas quais se insere na narrativa como personagem principal de momentos históricos e companheiro de grandes nomes da literatura. A atividade fantástica na qual o sonhador se vê completamente enlaçado é alvo da teoria de Fritz Perls (1988), identificada como uma reprodução em menor escala da realidade pelos indivíduos por meio de símbolos derivados de suas vivências. Para Perls (1988), o pensamento e a ação são feitos da mesma matéria, despendendo apenas de quantidades diferentes de energia. A homeostase entre esses dois mecanismos é necessária para a satisfação e autorrealização da pessoa, assim como os processos auto regulatórios necessários para uma manutenção da saúde psíquica (PERLS, 1988). A diferença entre o pensar e imaginar cenários, e o realmente viver aquilo, causa sofrimento e aflição em ambos os personagens principais, e o processo homeostático não se encontra balanceado. Nesse sentido, percebe-se que, para o protagonista do romance, a fantasia serve como um refúgio que, embora prazeroso, substitui o contato com o mundo e aprofunda o seu isolamento. O contato, elemento central da experiência humana para a Gestalt-terapia, caracteriza-se como uma função que possibilita o encontro com o mundo externo de maneira restauradora, pois sintetiza a necessidade humana de união e separação (POLSTER; POLSTER, 2001). Esta perspectiva parte do princípio de que cada indivíduo está sozinho na sua existência, mas precisa do contato com outras pessoas para viver, em uma relação dialética e interdependente (BERRI, 2020). O contato é um evento que acontece entre dois seres independentes que se arriscam a ser capturados na união, mas é apenas por meio deste risco que a identidade, a confiança e o senso de poder podem se desenvolver plenamente (POLSTER; POLSTER, 2001). No processo de assimilação elaborado, o sujeito se transforma, e por isso o contato é uma fonte essencial de crescimento e mudança (POLSTER; POLSTER, 2001). Por outro lado, quando o indivíduo evita ou distorce o contato, este ciclo é interrompido e o sujeito pode ficar “preso” em situações mal resolvidas e ter sua vivência plena e sua capacidade de ajustamento criativo afetados (ASSUNÇÃO; MENDES; PIMENTEL, 2025). Na obra, apesar de declarar seu amor às fantasias e sonhos, o sonhador sofre frequentemente ao perceber que nada daquilo que imaginou foi real. A imaginação é, sem dúvidas, um processo psicológico essencial para o ser humano, mas não pode ser a única forma de experienciar o mundo. A vivência concreta é fundamental para a maneira como o sujeito orienta sua existência, pois a vida acontece na relação (GINGER; GINGER, 1995). Desse modo, as experiências do sonhador e de Nastienka exemplificam como a reclusão na fantasia pode fechar as possibilidades de transformação do indivíduo e ilustram a importância do contato. Conclui-se que a análise da literatura pode constituir um recurso para compreensão fenomenológica dos modos de ser e de se relacionar com outros e um valioso objeto de estudo para a Psicologia.
Referências
ASSUNÇÃO, Dulcylene Barros de; MENDES, Rose Cléia Maria Barros; PIMENTEL, Simone Rodrigues. CICLO DO CONTATO EM GESTALT-TERAPIA. Lumen et Virtus, v. 16, n. 48, p. 5433–5449, 2025.
BERRI, Bruna. A Esperança como Ajustamento Criativo: Reflexões dos Processos de Saúde e Doença em Gestalt Terapia. PHENOMENOLOGICAL STUDIES - Revista da Abordagem Gestáltica, v. 26, n. 3, p. 351–360, 2020.
DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Noites brancas: Romance Sentimental (das Recordações de um Sonhador). Tradução de N. dos Santos. 3. ed. São Paulo: Editora 34, 2009. Publicado originalmente em 1848.
GINGER, Serge; GINGER, Anne. Gestalt: uma terapia do contato. Tradução de S. S. Rangel. São Paulo: Summus, 1995.
PERLS, Frederick S. A abordagem gestáltica e testemunha ocular da terapia. Tradução de J. Sans 2. ed. Rio de Janeiro: LTC, 1988.
POLSTER, Erving; POLSTER, Miriam. Gestalt-terapia integrada. São Paulo: Summus, 2001.