A potência criativa da raiva
Por uma clínica gestáltica antirracista
Palavras-chave:
raiva, agressividade, clínica, antirracismoResumo
A compreensão acerca da raiva na Gestalt-terapia tem raiz no conceito que pode ser considerado a pedra angular da abordagem: a agressividade. Essa, que inicialmente foi abordada na obra Ego, Fome e Agressão por Frederick Perls (2002), com contribuição de Laura Perls, anos mais tarde tornou-se o fio condutor para o desenvolvimento da teoria da experiência humana que fundamenta a Gestalt-terapia. No livro que marcou o surgimento da abordagem, Gestalt-terapia (Perls; Hefferline; Goodman, 1997), a agressividade é caracterizada como vital para a interação entre organismo humano e seu ambiente, uma vez que desempenha nessa relação a função tanto de impor limites como de promover mudanças. Desse modo, de um ponto de vista gestáltico, a raiva é qualificada como o aspecto emocional dessa agressividade e atua como o motor que direciona a passagem do impulso para a tomada de iniciativa, visando sempre crescimento e transformação (Leda Gimbo, 2023). Diferente do paradigma racionalista que defende a primazia da razão, a Gestalt-terapia reconhece nessa emoção uma potencialidade indispensável à vida, sendo esse um entendimento que vai ao encontro do pensamento de Audre Lorde (2019) em “Os usos da raiva: as mulheres reagem ao racismo”. Nesse texto, a escritora e feminista negra aponta a raiva como sua principal reação diante do racismo, por acreditar que tal emoção é uma ferramenta essencial ao enfrentamento da violência racial. Assim, propomos aqui uma articulação teórico-crítica entre o entendimento da Gestalt-terapia sobre a função da raiva no processo psicoterapêutico e os apontamentos de Audre Lorde no que diz respeito aos usos da raiva por mulheres negras, por acreditarmos que essa discussão pode contribuir para a retomada de um conceito base que, no entanto, ainda é pouco explorado (Araújo; Holanda, 2017). E, além disso, fortalecer a participação da abordagem gestáltica no debate a respeito de uma prática clínica antirracista. O objetivo neste trabalho, portanto, é refletir com base na teoria gestáltica sobre os efeitos clínicos e políticos do movimento de apropriação da raiva por mulheres negras no processo de psicoterapia. Assim, como método, em um primeiro momento identificamos as descrições que a escritora Audre Lorde faz sobre as funções da raiva em seu ensaio e, por seguinte, articulamos os trechos selecionados com as conceituações sobre raiva e agressividade expostas nas duas obras citadas anteriormente, por serem basilares na Gestalt-terapia, e em outras produções acadêmicas que abordam a temática. Posto isso, estabelecemos uma interlocução entre as duas propostas e destacamos os pontos de convergência que mais contribuem para o desenvolvimento deste trabalho, a começar pelo reconhecimento da raiva como um fenômeno do campo organismo-ambiente. Ou seja, ambas as perspectivas identificam que a raiva surge a partir da nossa relação com outras pessoas e com o mundo e, por isso, Lorde acredita que toda mulher negra tem em si um arsenal de raiva que é abastecido pelas diversas violências cotidianas produzidas através de um sistema social permeado por machismo e racismo. Desse modo, um segundo apontamento diz respeito à necessária diferenciação entre raiva e ódio ou violência, visto que esses últimos são baseados na tentativa de destruição e aniquilação do outro apenas pela incapacidade de conviver com a diferença. Já para as mulheres negras, a raiva serve como uma fonte de energia utilizada para satisfação dos próprios desejos e, sobretudo, para proteção da própria existência. Nesse sentido, legitimar a raiva que se mostra na clínica acompanhada dos relatos referentes a situações de injustiça, significa identificar essa emoção como sinal de vitalidade e criação, e não como sintoma que precisa ser controlado. Por último, fica evidente que o apoio ao processo de integração da raiva extrapola o âmbito individual da psicoterapia, uma vez que ao buscarem autonomia e liberdade, essas mulheres impactam também a dinâmica social e fortalecem o movimento de resistência ao racismo na sociedade como um todo. Sendo assim, pensar em uma ética clínica antirracista exige que a pessoa terapeuta esteja aberta e disponível para sustentar os afetos que emergem na relação devido ao conflito racial e, aliado a isso, um olhar para as estruturas do mundo que se fazem presentes nesse fundo de vividos. Afinal, uma psicoterapia que tem efetividade torna-se, felizmente, um risco social.
Referências
ARAUJO, Thauana Santos de; HOLANDA, Adriano Furtado. Uma leitura da noção de "agressão" nas obras de Fritz Perls. Rev. NUFEN, Belém, v. 9, n. 3, p. 16-37, 2017. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2175-25912017000300003&lng=pt&nrm=iso. Acesso em: 6 jul. 2026.
GIMBO, Leda Mendes. Notas sobre a raiva: clínica gestáltica e usos do corpo. Phenomenological Studies, Goiânia, v. 29, n. 1, p. 1-14, 2023. Disponível em: https://revistaabordagemgestaltica.com.br/index.php/go/article/view/131. Acesso em: 6 jul. 2026.
LORDE, Audre. Os usos da raiva: as mulheres reagem ao racismo. In: ______. Irmã Outsider: ensaios e conferências. 1. ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2019. p. 155-167.
PERLS, Frederick Salomon. Ego, fome e agressão: uma revisão da teoria e do método de Freud. São Paulo: Summus, 2002.
PERLS, Frederick Salomon; HEFFERLINE, Ralph; GOODMAN, Paul. Gestalt-terapia. São Paulo: Summus, 1997.