Conectividade, self e Gestalt-terapia

Autores

  • Giselle Letícia Padilha UEMS
  • Anna Clara Carrijo Carvalho Quadra UEMS
  • Gabrieli Mendes de Oliveira UEMS
  • Nayara Dillemburg da Silva UEMS
  • Camilla Fernandes Marques UEMS

Palavras-chave:

Self, awareness, contato, contemporaneidade, hiperconectividade

Resumo

O presente trabalho propõe uma discussão teórica-reflexiva acerca da experiência de contato na contemporaneidade, considerando os impactos do uso constante de tecnologias digitais sobre os modos de subjetivação. A reflexão parte da inquietação acerca das vivências cotidianas de jovens e adultos de nossa sociedade como a hiperconectividade e de como esta tem participado da constituição da experiência, influenciando os modos pelos quais os indivíduos estabelecem contato consigo, com os outros e com o mundo. Tal problemática suscita também reflexões sobre como esses processos atravessam a clínica gestáltica, especialmente no que se refere à constituição do self e ampliação da awareness. Neste sentido, o objetivo é discutir como a Gestalt-terapia compreende os fenômenos da virtualidade na atualidade e seus efeitos no campo experiencial e constituição do self. Por se tratar de um trabalho de desenvolvimento teórico-reflexivo decorrente de um trabalho de disciplina da graduação, a metodologia empregada foi a revisão de literatura sem o objetivo de esgotar o tema, mas buscando referenciais teóricos e estudos que fundamentassem a argumentação e conhecer a amplitude da discussão. Utilizou-se, então, descritores booleanos, tais como: “gestalt-terapia AND virtualidade”, “gestalt-terapia AND tecnologias digitais", “cultura digital, gestalt AND self”. A revisão evidenciou que as tecnologias digitais constituem atualmente um importante elemento do campo organismo-ambiente, participando ativamente dos processos de construção de sentidos e de organização da experiência. Em uma sociedade marcada pela fluidez dos vínculos, pela aceleração do tempo e pela abundância de informações, observa-se a emergência de formas culturais, políticas e de subjetivação atravessadas pela conectividade permanente, pela exigência de produtividade e pela disponibilidade contínua para novos estímulos. Sob a perspectiva da Gestalt-terapia, o self é compreendido como sistema de contatos, mas como um processo que emerge na fronteira do contato, configurando-se continuamente na relação entre organismo e ambiente, que torna possível a leitura didática da experiência do sujeito no mundo a partir das funções id, ego e personalidade. Nesse contexto, a virtualidade não representa apenas um instrumento tecnológico, mas uma dimensão constitutiva do campo experiencial contemporâneo, exigindo da clínica gestáltica uma compreensão ampliada das formas pelas quais o contato e a constituição do self se reorganizam na experiência mediada pelas tecnologias digitais. Enquanto fruto das reflexões a literatura nos indica que o acesso ilimitado à informação e às mídias digitais amplia possibilidades de comunicação, expressão e pertencimento, ao mesmo tempo que favorece experiências de dispersão da atenção, dificuldade de sustentar a experiência, fragmentação da experiência, redução de awareness corporal e dificuldade de assimilação das vivências. Compreende-se que excesso de estímulos e a lógica da hiperconectividade podem produzir um enfraquecimento da condição de permanência na experiência presente, permitindo o desenvolvimento de uma fronteira porosa, além de contribuir para a instabilidade dos referenciais que sustentam os processos de construção cultural e identitária. Entende-se, ainda, que tais fenômenos repercutem diretamente sobre os processos de awareness e sobre a condição do sujeito de discriminar necessidades emergentes, impactando os modos pelos quais o self se atualiza criativamente no campo, produzindo uma relação consigo, com o outro e com o mundo de não autenticidade e espontaneidade. Conclui-se que as tecnologias digitais não podem ser compreendidas apenas como recursos externos ao sujeito, mas como elementos constituintes das condições contemporâneas da existência. Assim, em um espaço formativo, torna-se necessário, atentar-se ao processo de ensino-aprendizagem da perspectiva clínica para reconhecimento novas configurações entre organismo/meio, como tem sido, contemporaneamente, as situações diante das relações com a virtualidade que produzem outras formas de ser sujeito no mundo e de relacionamento, bem como, a produção de ajustamentos criativos diante as possíveis interrupções das funções e dinâmicas do self. Destarte, a Gestalt-terapia oferece uma clínica em condições de contribuir criticamente com o manejo deste cenário de hiperconectividade que recai na constituição do self, ao trabalhar na ampliação da presença na fronteira de contato e awareness, buscando que o sujeito encontre novas formas sustentar experiência de contato, permitindo assim, maior integração dos vividos.

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Publicado

2026-10-30