Assimilação e ajustamento criativo na reabilitação pós-acidente vascular encefálico
Palavras-chave:
Acidente Vascular Encefálico, Reabilitação, Ajustamento Criativo, Assimilação, Gestalt-terapiaResumo
O Acidente Vascular Encefálico (AVE) é uma condição neurológica que pode ocasionar comprometimentos físicos, cognitivos, emocionais e sociais, impactando diretamente a autonomia e a qualidade de vida dos indivíduos acometidos. Diante dessas mudanças, o processo de reabilitação torna-se fundamental, exigindo não apenas a recuperação funcional, mas também a capacidade de assimilação das experiências vividas e de ajustamento criativo às novas condições de vida. Nesse contexto, este estudo teve como objetivo compreender o processo de assimilação e ajustamento de pessoas que sofreram AVE frente às suas mudanças, analisando os aspectos psicológicos, emocionais e relacionais envolvidos na reabilitação. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, de caráter exploratório, realizada com cinco participantes em processo de reabilitação em um Centro Especializado em Reabilitação III (CER III) . Ela foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UNIPLAC, parecer 7.730.890. A coleta de dados foi realizada por meio de entrevistas semiestruturadas, sendo os dados analisados através da técnica de análise de conteúdo temática (Minayo, 1992). O estudo foi fundamentado na Gestalt-terapia, com ênfase nos conceitos de percepção, ajustamento criativo e assimilação (Perls, Hefferline, Goodman, 1998; Cardella, 2014). Os resultados evidenciaram que o processo de reabilitação envolve uma tomada de consciência gradual das limitações decorrentes do AVE, acompanhada por impactos emocionais significativos, como tristeza, frustração, ansiedade e insegurança, que paulatinamente foram superados. Observou-se que o ajustamento criativo emerge como um elemento central, permitindo que os participantes desenvolvam novas formas de lidar com suas limitações e reorganizem suas atividades e rotinas e modos de vida. As redes de apoio, especialmente familiares e profissionais, mostraram-se fundamentais para o enfrentamento das dificuldades, favorecendo o engajamento no tratamento e o fortalecimento da autonomia, assim como no estudo de Gentilini (2022). Mas, aqui é importante marcar a perspectiva gestáltica pela qual se compreende que junto a esses elementos do campo, os participantes da pesquisa ajustaram-se criativamente, a partir de assimilação, com compreensão e transformação da situação vivida, estabelecendo relações de suporte no contato com outros colegas de grupo de pacientes, profissionais do serviço e familiares, desenvolvendo o autossuporte e criando condições para seu bem-estar, tal como descrito por Cardella (2014). Além disso, destacou-se o processo de ressignificação da vida, no qual os participantes passaram a construir novos projetos e sentidos para o futuro, mesmo diante das limitações impostas pelo AVE. Conclui-se que a reabilitação ultrapassa a dimensão física e funcional ou apenas uma perspectiva de adaptação, reinserção e participação social (esta última menos explorada), como enfatizadas nas diretrizes do Ministério da Saúde (Brasil, 2014), mesmo que se afirme uma abordagem multiprofissional e integral. Para além disso, ela envolve a reconstrução subjetiva do indivíduo e a integração de suas experiências, o que implica assimilação e ajustamento criativo frente à nova condição de vida. A Gestalt-terapia contribui significativamente para a compreensão desse processo, ao considerar o sujeito em sua totalidade e enfatizar o papel do ajustamento criativo como processo a partir do qual a saúde e a transformação se estabelecem.
Referências
BRASIL. Diretrizes de atenção à reabilitação da pessoa com acidente vascular cerebral. Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Brasília: Ministério da Saúde, 2013.
CARDELLA, B. Ajustamento Criativo e Hierarquia de Valores ou Necessidades. In: FRAZÃO, L.M.; FUKUMITSU, K.O. Gestalt-terapia: fundamentos e práticas clínicas. São Paulo: Summus, 2014.
GENTILINI, G.; SANTA, L.; VEDOVATTO, M.; HIRAI, P.; KLAUMANN, V.; PURIM, K.; NISIHARA, R. (2022). Índice de independência funcional de pacientes pós-acidente vascular cerebral submetidos a um programa de reabilitação multiprofissional. Rev Med (São Paulo). 2022. julho-ago. 101. 10.11606/issn.1679-9836.v101i4e-174732. Acesso em: 02 de agosto de 2026. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/362247230_Indice_de_independencia_funcional_de_pacientes_pos_acidente_vascular_cerebral_submetidos_a_um_programa_de_reabilitacao_multiprofissional#fullTextFileContent
MINAYO, M. C. S. O desafio do conhecimento. São Paulo: Hucitec, 1992.
PERLS, F.; HEFFERLINE, R.; GOODMAN, P. Gestalt Terapia. São Paulo: Summus, 1998.