Ansiedade como ajustamento criativo

Contribuições da Gestalt-terapia à compreensão contemporânea

Autores

  • Karina Duarte Oliveira Lima

Palavras-chave:

Ansiedade, Gestalt-terapia, Ajustamento criativo, Sofrimento contemporâneo

Resumo

A ansiedade configura-se como uma das principais formas de sofrimento psíquico da contemporaneidade, intensificada por contextos marcados pela aceleração do tempo, instabilidade nas relações sociais, excesso de informações e elevada exigência de desempenho. Embora frequentemente compreendida apenas como sintoma psicopatológico, a Gestalt-terapia propõe uma leitura ampliada desse fenômeno, considerando a ansiedade como expressão do modo pelo qual o indivíduo busca ajustar-se às demandas do campo organismo-ambiente. Nessa perspectiva, o conceito de ajustamento criativo ocupa posição central ao compreender que todo comportamento representa, em determinado contexto, a melhor possibilidade encontrada pelo organismo para preservar o contato consigo mesmo e com o ambiente. Assim, mesmo respostas que geram sofrimento podem ser entendidas como tentativas legítimas de autorregulação diante de circunstâncias percebidas como ameaçadoras. O presente estudo tem como objetivo analisar as contribuições da Gestalt-terapia para a compreensão da ansiedade enquanto ajustamento criativo, discutindo sua relevância para a prática clínica e para a compreensão do sofrimento contemporâneo. Trata-se de uma pesquisa de natureza qualitativa, desenvolvida por meio de revisão bibliográfica narrativa, fundamentada em obras clássicas da Gestalt-terapia e em produções científicas recentes sobre ansiedade, ajustamento criativo, awareness e autorregulação organísmica. A análise evidencia que a ansiedade não deve ser reduzida a um conjunto de sintomas isolados, mas compreendida como manifestação de interrupções no fluxo de contato, decorrentes de experiências que restringem a capacidade do indivíduo de responder de forma flexível às demandas do ambiente. Sob essa ótica, o sofrimento emerge quando antigos modos de funcionamento, anteriormente adaptativos, tornam-se rígidos e insuficientes diante das transformações do campo. A prática gestáltica busca favorecer o desenvolvimento da awareness, ampliando a consciência da experiência vivida no aqui e agora e possibilitando que novos ajustamentos criativos sejam construídos. Diferentemente de uma intervenção voltada exclusivamente para a eliminação da ansiedade, a Gestalt-terapia procura compreender a função que esse fenômeno exerce na organização da experiência da pessoa, reconhecendo-o como um importante indicador das necessidades relacionais, emocionais e existenciais presentes no campo. Estudos recentes demonstram que essa perspectiva fortalece intervenções mais humanizadas e contextualizadas, valorizando a singularidade da experiência e a capacidade de autorregulação do organismo. Desse modo, conclui-se que compreender a ansiedade como ajustamento criativo amplia as possibilidades de cuidado em saúde mental, deslocando o foco da supressão dos sintomas para a promoção de consciência, responsabilidade e flexibilidade nas formas de contato com o mundo.

Downloads

Publicado

2026-10-30