Agonia de Eros
Uma leitura gestáltica do mito de Psique
Palavras-chave:
Eros, alteridade, teoria do self, Gestalt-terapia, contatoResumo
A contemporaneidade caracteriza-se, segundo Byung-Chul Han, pelo predomínio de uma lógica que reduz a experiência da alteridade, favorecendo relações orientadas pela transparência, pelo desempenho e pela repetição do idêntico. Em A Agonia do Eros (HAN, 2017a), o autor compreende Eros não como sinônimo de amor romântico, mas como a força que desloca o sujeito para além do fechamento narcísico. Em A Expulsão do Outro (HAN, 2017b), sustenta que suprimir a distância não produz proximidade, mas a destrói, convertendo o espaço relacional em uma câmara de eco da qual se elimina toda estranheza. O objetivo deste trabalho é refletir sobre uma contribuição da teoria do self em Gestalt-terapia para compreender a agonia contemporânea de Eros, tomando o mito de Eros e Psique como operador simbólico de uma transformação nas condições da experiência relacional. Trata-se de um desenvolvimento teórico-reflexivo, de natureza fenomenológica, que articula a filosofia de Han, a leitura simbólica do mito e a teoria do self em Gestalt-terapia. Na narrativa do mito, Psique é conduzida a um palácio invisível, onde recebe Eros apenas na escuridão e sob a interdição de vê-lo. Enquanto a relação se sustenta por uma imagem que não pode ser interpelada, ainda não há encontro propriamente dito: o outro está presente, mas não se constitui como outro. Propõe-se aqui que a distância opere como fio condutor da articulação, não como aquilo que separa o sujeito do outro, mas como aquilo sem o qual não há outro a encontrar. Ao acender a lâmpada, Psique não transgride simplesmente uma regra: institui uma distância, e é essa distância que faz Eros aparecer. A distância assim instituída é o que instaura uma fronteira, e é na fronteira que o contato pode se dar. Inaugura-se então uma travessia marcada pela perda e pela necessidade de sustentar uma alteridade que já não se deixa reduzir. A separação não representa, nessa leitura, o fracasso da relação, mas a condição para que algum encontro se torne possível. Sob a perspectiva da teoria do self, o self não designa o psiquismo individual, mas um acontecimento de campo (PERLS; HEFFERLINE; GOODMAN, 1997). Ao descreverem o campo clínico, Müller-Granzotto e Müller-Granzotto (2012) observam que nele os termos se misturam sem jamais coincidir. Disso decorre uma consequência decisiva: a alteridade não constitui obstáculo à experiência, mas aquilo que diversifica as formas em que ela pode se dar. Onde a distância é eliminada, a experiência tende à coincidência, e o campo se empobrece. A esse empobrecimento corresponde a expulsão do estranho. A clínica gestáltica não constitui exceção a esse campo, mas o lugar em que a expulsão do estranho se torna visível, justamente porque ali ela é interrogada. Nesse sentido, ainda que a formulação a seguir descreva a experiência clínica, ela ilumina uma condição mais ampla da experiência relacional. Conforme Müller-Granzotto e Müller-Granzotto (2012, p. 7), fazer clínica implica encontrar e acolher, no discurso e na ação dos interlocutores, o estranho ou inesperado que possa emergir, em um exercício que não se orienta por dogmas, metas ou finalidades, mas pelo acolhimento ao desviante. É exatamente esse desvio que a cultura contemporânea, segundo Han, tende a suprimir. O desvio supõe a distância: onde nada se distingue, nada pode desviar. O palácio invisível pode ser lido como um campo sem desvio possível, no qual nada excede o já sabido e nada surpreende. A lâmpada é o elemento desviante que reintroduz o que não estava previsto. Como resultado, a leitura proposta permite compreender a agonia de Eros não apenas como crise das relações, mas como transformação nas condições em que o self acontece. Se Eros designa a abertura ao que excede o sujeito, sua agonia expressa a dificuldade contemporânea de sustentar experiências nas quais a distância não seja eliminada em nome de uma proximidade sem tensão. Conclui-se que a teoria do self em Gestalt-terapia oferece uma contribuição para pensar a constituição do sujeito não como realidade previamente dada, mas como acontecimento que depende da possibilidade de ser afetado pela diferença. Em um campo que expulsa sistematicamente o estranho, resta interrogar o que ainda se nomeia como encontro.
Referências
HAN, Byung-Chul. A agonia do Eros. Petrópolis: Vozes, 2017a.
HAN, Byung-Chul. A expulsão do outro. Petrópolis: Vozes, 2017b.
MÜLLER-GRANZOTTO, Marcos José; MÜLLER-GRANZOTTO, Rosane Lorena. Clínicas gestálticas: sentido ético, político e antropológico da teoria do self. São Paulo: Summus, 2012.
PERLS, Frederick; HEFFERLINE, Ralph; GOODMAN, Paul. Gestalt-terapia. Tradução de Fernando Rosa Ribeiro. 3. ed. São Paulo: Summus, 1997.