Construção da prática clínica em Gestalt-terapia

Um relato de experiência de estágio supervisionado

Autores

  • Adriana Grabner
  • Anne Rebeca Batista Marques
  • Marina Eclair dos Santos
  • Marisa de Andrade Gonçalves
  • Sarah Lívia Gomes de Moura

Palavras-chave:

Formação em Psicologia, Psicologia Clínica, Práticas Psicoterapêuticas, Gestalt-Terapia

Resumo

RESUMO: Introdução: Ao compreender a psicoterapia como um campo de experiência, a Gestalt-terapia desloca a formação clínica de uma lógica centrada na transmissão de conhecimentos para uma aprendizagem construída no contato, na relação e na experiência vivida. Para Alvim e Ribeiro (2009), o trabalho de campo gestáltico privilegia a experiência em ação, entendendo que terapeuta e cliente se constituem mutuamente no processo de contato que emerge na fronteira organismo-ambiente. Nessa perspectiva, os estágios supervisionados configuram-se como espaços privilegiados de aprendizagem, possibilitando a articulação entre universidade, prática profissional e reflexão crítica sobre a atuação clínica. Objetivo: Compreender a experiência de estágio supervisionado em práticas psicoterapêuticas, destacando o processo de aprendizagem. Metodologia: O presente resumo trata-se de um relato de experiência elaborado a partir da participação de graduandas em Psicologia no Estágio Supervisionado em Práticas Psicoterapêuticas, realizado em uma universidade comunitária do sul do Brasil no ano de 2025. O estágio compreendeu atendimentos clínicos supervisionados e encontros semanais de supervisão grupal, nos quais eram discutidos casos clínicos, atravessamentos da prática e referenciais teóricos da Gestalt-terapia. As reflexões apresentadas foram construídas a partir das experiências vividas no campo de estágio e das discussões desenvolvidas durante o processo de supervisão. O processo de aprendizagem ocorreu por meio da articulação entre estudo teórico, supervisão clínica e experiência de campo. Antes do início dos atendimentos, as estagiárias participaram de encontros voltados ao estudo de obras de Belmino (2020), Müller-Granzotto e Müller-Granzotto (2012) e Müller-Granzotto (2007), cujas discussões favoreceram a compreensão dos fundamentos da Gestalt-terapia. As supervisões, realizadas semanalmente em grupo, constituíram importantes espaços de reflexão sobre os atendimentos. Resultados e discussões: Nesses encontros, eram compartilhados relatos clínicos, dúvidas e atravessamentos vivenciados pelas estagiárias, enquanto a orientadora promovia questionamentos técnicos e experienciais que ampliaram a compreensão dos fenômenos emergentes no campo. A participação coletiva contribuiu para a construção do raciocínio clínico e para a articulação entre teoria e prática. A experiência evidenciou que a formação em Gestalt-terapia ultrapassa a aquisição de conhecimentos teóricos, exigindo abertura para o contato com a própria experiência e com os afetos mobilizados no encontro terapêutico. A vivência também suscitou reflexões acerca da distribuição dos referenciais teóricos ao longo da formação em Psicologia. Nesse processo, o professor supervisor assume uma responsabilidade didático pedagógica fundamental, atuando como mediador entre a teoria e a prática, buscando incitar a reflexão crítica e ética sobre a atuação clínica e profissional (Menezes e Medrado, 2016). Embora a Gestalt-terapia constitua uma abordagem consolidada no cenário brasileiro, o primeiro contato sistemático das estagiárias com seus fundamentos ocorreu apenas durante o estágio supervisionado. Tal constatação evidencia uma possível lacuna na formação acadêmica, limitando o acesso dos estudantes à diversidade epistemológica presente na Psicologia. Nesse sentido, o estágio não apenas possibilitou a aproximação com a abordagem, mas também evidenciou a importância da ampliação de espaços destinados às perspectivas fenomenológico-existenciais no contexto universitário. A construção da práxis na psicologia, desenvolvida a partir das experiências iniciais e da formação de competências para a prática profissional, é compartilhada entre os membros do grupo de supervisão. Conclusão: A experiência de estágio em Práticas Psicoterapêuticas constituiu um importante espaço de integração entre teoria e prática, contribuindo para o desenvolvimento de competências técnicas, éticas e reflexivas fundamentais à formação em Psicologia. O contato direto com as demandas dos usuários possibilitou o aprimoramento da escuta qualificada, do manejo clínico, da elaboração de prontuários e do planejamento de intervenções, sempre articulados ao acompanhamento em supervisão. O processo também favoreceu a compreensão de que a prática psicoterapêutica é construída de forma relacional, exigindo o reconhecimento das implicações do terapeuta e das múltiplas dimensões sociais, políticas e econômicas que atravessam o sofrimento psíquico. As dificuldades encontradas, relacionadas à complexidade dos casos, às exigências institucionais e à necessidade de aprofundamento teórico, configuraram-se como oportunidades de aprendizagem e amadurecimento profissional. Esse espaço de interlocução favoreceu a integração entre os referenciais teóricos e as experiências desenvolvidas no campo de estágio, colaborando para o aprofundamento da reflexão ética, crítica e técnico-científica acerca da prática clínica, bem como para a consolidação da compreensão dos pressupostos epistemológicos e metodológicos das clínicas gestálticas.

Referências

ALVIM, M. B.; RIBEIRO, J. P. O lugar da experimentação no trabalho clínico em Gestalt-terapia. Estudos e Pesquisas em Psicologia, v. 9, n. 1, 1 abr. 2009. Disponível em: https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_abstract&pid=S1808-42812009000100005&lng=en&nrm=iso&tlng=pt. Acesso em: 09/06/2026.

BELMINO, M. Gestalt-terapia e experiência de campo: dos fundamentos à prática clínica. Jundiaí: Paco Editorial, 2020.

MENEZES, R; MEDRADO, B. Formação em psicologia clínica: estágio supervisionado como atividade potencial de desenvolvimento profissional. Revista InterScientia, [S. l.], v. 1, n. 2, 2016. Disponível em: https://periodicos.unipe.br/index.php/interscientia/article/view/34. Acesso em: 17 ago. 2025

MÜLLER-GRANZOTTO, M; MÜLLER-GRANZOTTO, R. Clínicas gestálticas: sentido ético, político e antropológico da teoria do self. São Paulo: Summus Editorial, 2012.

MÜLLER-GRANZOTTO, Marcos José; MÜLLER-GRANZOTTO, Rosane Lorena. Fenomenologia e Gestalt-terapia. São Paulo: Summus, 2007

PERLS, Frederick S.; HEFFERLINE, Ralph F.; GOODMAN, Paul. Gestalt-terapia. São Paulo: Summus, 1997

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Publicado

2026-10-30