Sofrimento no trabalho e o sujeito contemporâneo
Contribuições da Gestalt-terapia
Palavras-chave:
Trabalho, Gestalt-terapia, Psicologia Social, Saúde do Trabalhador, Saúde MentalResumo
O Brasil registra um crescimento expressivo dos afastamentos do trabalho por transtornos mentais. Em 2025, mais de meio milhão de licenças foram concedidas, tendo a ansiedade e a depressão como principais causas de afastamento, segundo dados do Ministério da Previdência Social1. Esse aumento evidencia a necessidade de compreender os modos contemporâneos de produção do sofrimento psíquico relacionado ao trabalho, uma vez que este ocupa lugar central na constituição da experiência humana, da identidade, do reconhecimento social e da produção de sentidos existenciais2. As transformações no mundo do trabalho, marcadas pela intensificação da produtividade, da competitividade e da responsabilização individual pelo desempenho, impõem novos desafios à compreensão do sofrimento humano. Nesse contexto, torna-se pertinente discutir como essas exigências atravessam o campo organismo-ambiente e repercutem na experiência dos sujeitos. Este estudo teve como objetivo analisar os processos de sofrimento relacionados ao trabalho na contemporaneidade, articulando contribuições da Gestalt-terapia, das reflexões de Byung-Chul Han sobre a sociedade do desempenho e da Psicodinâmica do Trabalho. Trata-se de uma pesquisa bibliográfica qualitativa, de caráter exploratório, descritivo e reflexivo, conforme pressupostos de Gil3. O referencial teórico fundamentou-se nas contribuições de Andrade (2023)4, Cardella (2014)5, Carvalho (2023)6, Dejours (1992)2, Han (2017)7, Perls, Hefferline e Goodman8 (1997), Veras (2025)9 e Yontef (1998)10. A análise bibliográfica permitiu identificar que a cultura do desempenho favorece a introjeção de exigências sociais, incorporadas pelos sujeitos como imperativos de produtividade, eficiência e desempenho. Sob a perspectiva da Gestalt-terapia, essas introjeções podem sustentar formas de autorregulação deverística10, nas quais o "dever" passa a orientar a experiência em detrimento da awareness das necessidades emergentes. Esse funcionamento repercute nos processos de contato, reduz a flexibilidade na fronteira organismo-ambiente e favorece ajustamentos criativos cada vez mais rígidos, comprometendo a autorregulação organísmica e a construção de sentidos na relação com o trabalho. Em interlocução com Han7 e Dejours2, observa-se que tais processos contribuem para a naturalização da autoexploração e para a individualização do sofrimento, obscurecendo as determinações relacionais, organizacionais e socioculturais que participam de sua constituição. Os resultados indicaram que a aproximação entre essas perspectivas amplia a compreensão do sofrimento relacionado ao trabalho ao evidenciar que ele se constitui na relação entre sujeitos e campo. Enquanto Han analisa os efeitos da sociedade do desempenho e Dejours destaca o papel da organização do trabalho na produção do sofrimento, a Gestalt-terapia contribui ao explicitar como essas condições são vividas na experiência imediata, reorganizando os processos de contato, de awareness e de ajustamento criativo. Conclui-se que a Gestalt-terapia dispõe de um repertório conceitual consistente para o campo da Saúde do Trabalhador. A articulação entre introjeção, autorregulação deverística, awareness, contato, autorregulação organísmica e ajustamento criativo possibilita compreender como as exigências contemporâneas de produtividade são assimiladas pelos sujeitos e repercutem em seus modos de existir, de produzir sentidos e de estabelecer relações com o trabalho. Ao colocar esses conceitos em interlocução com Han e com a Psicodinâmica do Trabalho, o estudo amplia as possibilidades teóricas de compreensão do sofrimento psíquico relacionado ao trabalho e fortalece a inserção da Gestalt-terapia nesse campo de investigação.
Referências
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