Vidas em movimento
Práticas gestálticas em contexto de migração e refúgio
Palavras-chave:
Migração, Mulheres, Grupos, Gestalt-terapia, CuidadoResumo
A Organização Internacional para Migrações (OIM) estima que mais de 304 milhões de pessoas se deslocaram entre fronteiras internacionais, a partir de migrações espontâneas e forçadas (OIM, 2026). Para além do fundo histórico da população brasileira ser marcado por grandes fluxos migratórios internos e internacionais, o Brasil atualmente abriga aproximadamente 2 milhões de migrantes, no qual pessoas de nacionalidade venezuelana consistem no maior grupo social deslocado residindo no país (IBGE, 2022). A migração venezuelana consiste no maior deslocamento da América Latina recente, sendo o Brasil o terceiro principal destino migratório da comunidade venezuelana no território latino-americano (Cáritas Brasileira, 2024). Diante desse cenário, construir estratégias de cuidado que rompam com lógicas estigmatizantes que relegam a migração a uma experiência necessariamente traumática é afirmar o cuidado como uma prática viva (Marques; Quadros, 2025; Bellacasa, 2023). Defende-se que o sofrimento advindo dos processos migratórios é profundamente marcado por um projeto neoliberal necropolítico que privilegia o individualismo, fragilizando os laços sociais e as relações comunitárias, e favorecendo a alienação e desmobilização social. Nessa direção, compreende-se a coletividade como elemento fundante das estratégias de enfrentamento das desigualdades sociais, e reconhece-se o papel das mulheres como principais agentes mobilizadoras do compromisso político do enfrentamento comunitário como forma de resistência à exclusão social (Marques, 2023). E, portanto, é a partir da experiência de coletivização que se potencializa a mobilização de redes afetivas de suporte e solidariedade política (hooks, 2020). Numa perspectiva gestáltica, compreende-se esse movimento como um ajustamento criativo (PHG, 1997), no qual as mulheres para manterem-se ativas no processo de afirmação da vida em condições hostis, organizam-se a partir do cuidado mútuo. Objetiva-se compartilhar as experiências vivenciadas a partir do Projeto de Pesquisa-Intervenção “Vidas em Movimento, Herança e Pertencimento: Reconfigurações Gestálticas no Acolhimento e Cuidado com Mulheres Migrantes e em Situação de Refúgio” realizado na UERJ, com encontros grupais entre mulheres migrantes internacionais que vivem no Rio de Janeiro/Brasil. O grupo tem como principal objetivo reconhecer as adaptações e inadaptações de mulheres migrantes em situação de migração e refúgio no Rio de Janeiro, a fim de promover estratégias de saúde através da reconfiguração de fronteiras para integrá-las ao novo, valorizando a herança trazida de seu país de origem, a partir da escuta e do acolhimento dessas mulheres. Vislumbra-se apresentar: como o grupo de mulheres opera como espaço de fortalecimento das estratégias de integração no novo território, a partir da partilha de dicas, conselhos e informações; como as mulheres se apoiam na experimentação do novo idioma; como constroem um espaço de acolhimento frente as dificuldades e conquistas, a partir da escuta ativa que permite ouvir, mas também falar; e como a solidariedade política entre mulheres vai sendo tecida a cada encontro. O espaço do grupo constitui-se como um instante de pertencimento (Quadros, 2023) no qual, através da dimensão sensível de produção de cuidados em saúde mental, modo de intervenção assumido e defendido pela Gestalt-terapia como prática clínica política (Perls, 1994), construímos coletivamente laços de sustentação e afirmação da vida.
Referências
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