Vivências grupais de psicólogas com mães enlutadas da oncologia pediátrica
Palavras-chave:
Luto materno, Grupo de apoio, Gestalt-terapia, Construcionismo social, Oncologia pediátricaResumo
Este trabalho tem como objetivo apresentar as vivências grupais de duas psicólogas no contexto de um projeto de extensão de apoio ao luto voltado a mães da oncologia pediátrica. O projeto foi realizado em um hospital público de Santa Catarina e teve como finalidade oferecer suporte em grupo a mães que perderam filhos em decorrência de doença oncológica. Os referenciais teóricos que orientaram o projeto foram a Gestalt-terapia e o Construcionismo Social, destacando-se os conceitos de vulnerabilidade da função personalidade no luto, responsável pelas dimensões identitária e biográfica das mães, e as construções societárias sobre a mulher quando perde um filho(a). Em parceria com a equipe de cuidados paliativos da instituição, foram realizados 12 encontros com um número variável de mães a cada encontro, entre setembro de 2024 e agosto de 2025. O processo de luto dessas mães orientou o campo experiencial das duas psicólogas facilitadoras do grupo, bem como a coesão grupal se deu a partir dos seguintes questionamentos recorrentes: Como e por que ocorreu o adoecimento do filho? Quem se é após a perda de um filho(a)? Como seguir em frente sem o filho(a)? Quais são os recursos de apoio para mães enlutadas? Esses questionamentos atravessaram a experiência subjetiva das psicólogas em torno da delimitação da sua própria vulnerabilidade, especialmente o autossuporte e autocuidado frente aos lutos pessoais ligados ao ser mulher e mãe. Em um dos encontros do grupo, as psicólogas levaram uma dinâmica grupal chamada Cartografia do luto (Laura Kubo) a qual foi respondida por elas juntamente com as mães enlutadas. Esta dinâmica possibilitou aproximar as formas individuais e coletivas de enfrentamento de todas as mulheres do grupo e que mobilizaram os seus próprios recursos através da sua história de vida e história pessoal de perdas no ciclo vital. Em outros encontros do grupo, as vivências das psicólogas foram escutar, acolher e figurar como heterossuporte para a expressão dos medos de novas perdas, das ansiedades, da raiva e da intensidade do sofrimento desde que o (a) filho (a) morreu. Muitas mães descreveram experiências de rupturas do self vivenciadas também a partir de várias queixas de saúde física, como sobrepeso, anorexia, sensações de despersonalização, entre outras. Neste ponto, foi importante nos encontros do grupo quando as psicólogas identificaram o sofrimento antropológico das mães. Através da psicoeducação do luto, foi possível assinalar que este sofrimento girava em torno dos estigmas da doença grave na infância, do papel da mãe e da mulher na família, os significados do cuidado materno, a sexualidade, a falta de apoio da família nuclear e ampliada, bem como manter a vida social após a perda. Muitas mães buscaram recursos de saúde mental e psicoterapia com especialistas para lidar com o sofrimento antropológico do luto. As psicólogas facilitadoras do grupo tiveram que transitar entre ser heterossuporte e lidar com as emoções do campo de presença. Mesmo dominando as técnicas utilizadas durante as interações grupais, atuar no campo grupal com mães em luto exigiu das psicólogas uma abertura social e linguística às narrativas, significados e enfrentamento de um sofrimento biopsicossocial, contínuo e muito doloroso. Para tanto, as psicólogas desenvolveram seus recursos pessoais e conceituais para facilitar aspectos da reconstrução do self das mães que participaram do grupo. Desde modo, tanto a Gestalt-Terapia quanto o Construcionismo Social foram referenciais importantes para orientar as práticas do projeto de extensão de suporte grupal ao luto de mães, especialmente o conceito de vulnerabilidade advinda da função personalidade no luto, o sofrimento antropológico e reconstrução do self no campo grupal.
Referências
MÜLLER-GRANZOTTO, Marcos José; MÜLLER-GRANZOTTO, Rosane Lorena. Clínicas gestálticas: sentido ético, político e antropológico da teoria do self. São Paulo: Summus, 2012.
MÜLLER-GRANZOTTO, Marcos José; MÜLLER-GRANZOTTO, Rosane Lorena. Psicose e sofrimento. São Paulo: Summus, 2012.
NEIMEYER, Robert A.; KLASS, Dennis; DENNIS, Michael Robert. A Social Constructionist Account of Grief: Loss and the Narration of Meaning. Death Studies, v. 38, n. 8, p. 485-498, 2014. DOI: 10.1080/07481187.2014.913454.