Sonhos de mulheres negras como tecnologias ancestrais de produzir vida
Palavras-chave:
Mulheres Negras, Relações Raciais, Subjetividade, Sonhos, Gestalt-terapiaResumo
RESUMO: As opressões interseccionais de raça e gênero produzem sofrimento psíquico e restringem a existência das mulheres negras através de violências cotidianas em diferentes dimensões, como a restrição material, o desamparo ambiental e a perda de encantamento pela vida, pois o projeto colonial passa também pela destruição dos territórios imateriais como a sensibilidade, a imaginação e a capacidade de sonhar. Além dos efeitos da violência, é necessário reconhecer e valorizar os ajustamentos criativos que as mulheres negras têm usado para inventar e sustentar modos de vida mais autênticos e saudáveis inclusive nos ambientes que menos oferecem suporte. Em diálogo com autoras negras, os sonhos despertos e oníricos aparecem como uma tecnologia ancestral que subverte os estereótipos impostos às mulheres negras permitindo a criação, a fugitividade e a imaginação. Objetivo: Compreender, a partir de uma perspectiva gestáltica de campo, os ajustamentos criativos produzidos à partir da relação figura-fundo entre os sonhos de mulheres negras e o contexto de opressões raciais e de gênero. Metodologia: Trata-se de um trabalho teórico que se embasa na Gestalt-terapia em diálogo com o fenômeno do sonhar na vivência subjetiva de mulheres negras. O percurso reflexivo consistiu na seleção e análise da obra de duas autoras negras brasileiras que relataram experiências de sonhar: Carolina Maria de Jesus e Cidinha da Silva. Resultados e Discussão: Carolina Maria de Jesus viveu grande parte da vida em situação de extrema pobreza, mantendo a si e aos três filhos com os ganhos da catação de lixo. Desse fundo de vividos nasce o livro Quarto de Despejo, que foi recebido com repercussão e permitiu atingir uma condição social mais segura. Ela acreditava que os sonhos eram Deus agindo para aliviar sua condição de vulnerabilidade, sugerindo que o mundo onírico era um presente divino com potencial de confortar diante da precariedade. Ao escrever que a fartura em casa parece um sonho, a autora mostra quão rara era a experiência de acessar alimentação adequada e, portanto, o desejo de ter uma vida digna. Sonhar parece ter sido um refúgio da fome, do abandono e do desamparo que caracterizam a vulnerabilidade psicossocial na qual ela viveu e também um espaço de livre imaginação. Cidinha da Silva retoma a obra de Carolina e afirma que vale a pena sonhar e acreditar no sonho, pois essa experiência pode produzir infinitos, ou seja, mobilizar movimentos que conectem à vida, à alegria e ao encantamento. Pela lente gestáltica, podemos apontar a importância de compreender o contexto e o modo de vida de quem sonha para abordar a relação figura-fundo, assim como reconhecer o potencial de produção de sentido para a vida. As autoras inspiram a compreender os sonhos como vivências profundamente conectadas ao contexto de vida, como figuras que emergem de um campo organizado por opressões e, ainda assim, capazes de abrir brechas nas restrições impostas. Considerações Finais: Carolina Maria de Jesus demonstra que no contexto de precariedade seus sonhos não eram absurdos ou fantásticos, mas sim uma expressão das condições que deveriam ser básicas para uma existência digna. Compreendemos os sonhos como uma maneira de produzir sentidos e acreditamos na importância do acolhimento, embasado no letramento racial e de gênero, dos sonhos de mulheres negras. Quando a realidade é violenta como um pesadelo, os sonhos podem ser a janela para experimentar liberdade e imaginar outros mundos possíveis, já que eles podem expandir o horizonte existencial e resgatar a conexão com a vida.
Referências
ARRELIAS, Lívia; MAGALHÃES, Mariana (org.). Gestalt-terapia e relações étnico-raciais. São Paulo: Summus, 2025.
BELMINO, Marcus Cézar de Borba. Gestalt-terapia e experiência de campo: dos fundamentos à prática clínica. Jundiaí: Paco Editorial, 2020.
JESUS, Carolina Maria. Quarto de despejo: diário de uma favelada. São Paulo: Ática, 2014.
MACÊDO, Stefanie de Almeida; SILVA, Maria da Conceição Gomes; NEVES, Tatiana de Souza Santos. A escrita das margens: os diários de Carolina Maria de Jesus como exercício de resistência epistêmica. Revista da Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as (ABPN), [S. l.], v. 16, n. Edição Especial, 2023. Disponível em: https://abpnrevista.org.br/site/article/view/1564.
PERLS, Frederick Salomon; HEFFERLINE, Ralph; GOODMAN, Paul. Gestalt-terapia. Trad. Fernando Rosa Ribeiro. São Paulo, Summus, 1997.
SANTOS, Luísa Parreira; FARINHA, Marciana Gonçalves. Notas para uma Escuta Racializada em Gestalt-terapia. In: Mônica Alvim; Paulo Barros; Silvia Alencar; Vanessa Brito. (Org.). Por uma Gestalt-terapia crítica e política: relações raciais, gênero e diversidade sexual. Porto Alegre: Editora Fi, 2022, v. 2, p. 1-762.
SILVA, Cidinha. Tecnologias ancestrais de produção de infinitos. Goiânia: Martelo, 2022.
SILVA, Cidinha. Quando borboletas furiosas se tornam mulheres negras: nós e os livros. Belo Horizonte: Relicário Edições, 2026.