Setting terapêutico e awareness
Um relato de experiência
Palavras-chave:
Setting terapêutico, Relação terapêutica, awareness, Gestalt-terapiaResumo
A Gestalt-terapia é uma abordagem dialógica, fundamentada no encontro entre duas pessoas em uma relação autêntica e orientada pela presença no aqui e agora. Parte-se da compreensão de que a mudança ocorre na relação. Nesse sentido, a compreensão da relação terapêutica implica considerar que o setting terapêutico seja algo para além de sua dimensão estrutural e física, configurando-se como um campo intersubjetivo sustentado pela presença e disponibilidade das pessoas envolvidas. A disponibilidade para o contato e a qualidade da relação estabelecida constituem elementos importantes para que a pessoa possa experimentar novas formas de estar em relação consigo, com o outro e com o ambiente. É nesse espaço de encontro que a awareness pode se desenvolver, sendo compreendida como a capacidade de “dar-se conta” do que emerge no campo da experiência, no aqui e agora. O setting terapêutico pode, portanto, favorecer condições para que sensações, sentimentos, pensamentos e necessidades se tornam figura, possibilitando ao paciente ampliar sua percepção acerca de si mesmo e de suas formas de contato. Objetivo: Analisar conceitualmente as experiências clínicas articulando a teoria da Gestalt-terapia aos relatos de casos acompanhados, a fim de compreender o setting terapêutico como campo de desenvolvimento da awareness. Metodologia: Relato de experiência, de caráter qualitativo, descritivo e reflexivo, construído a partir de vivências em práticas clínicas gestálticas desenvolvidas em projetos de extensão, pesquisa e ensino do KOAN/UFSC durante atendimentos à comunidade no SAPSI - Serviço de Atenção Psicológica/UFSC. Utilizou-se dados de diário de campo, com informações reflexivas sobre os atendimentos psicológicos individuais. Foram preservados o anonimato e a confidencialidade das pessoas atendidas. Resultados e discussões: As pessoas atendidas em psicoterapia gestáltica do projeto apresentavam demandas variadas, Evidenciou-se como elemento comum: 1) a dificuldade inicial do processo psicoterapêutico em acionar a autopercepção da pessoa sobre suas próprias necessidades e emoções. 2) Quando ocorre limitação na awareness, a maioria das pessoas introjetam sensações que apareciam como manifestações no próprio corpo, tipicamente como retroflexão. 3) Encontramos repetições de relatos de sofrimentos por sintomas somáticos e dores crônicas, resultantes da assimilação acrítica de exigências, julgamentos e estigmas sociais. 4) A relação terapêutica mostrou consolidar-se como um campo seguro de experimentação de contato. 5) O uso da técnica da cadeira vazia mostrou-se potente e possibilitou o trabalho sobre conflitos internos de maneira profunda. 6) As perguntas processuais direcionadas ao momento presente atuaram como facilitadoras do processo clínico. Conclusão: A presença terapêutica fundamentada na autenticidade e na qualidade da relação propicia o desenvolvimento de campo terapêutico facilitador de awareness. A autenticidade terapêutica necessita diferenciar os próprios valores do terapeuta daqueles introjetados pelo outro. Durante os processos clínicos, a corporeidade se mostrou como a base fundamental da experiência vivida como categoria temporal fenomenológica. A “presença” emerge da corporificação e da apropriação do vivido, permitindo ao terapeuta e ao outro a sustentação do contato com o que é genuíno.
Referências
HYCNER, Richard; JACOBS, Lynne. Relação e cura em Gestalt-terapia. São Paulo: Summus Editorial, 1997.
MOTTA, H. L.; ASSIS, G. A. P.; SATELIS, L. R. A gestalt-terapia como clínica do encontro: compreendendo a relação dialógica. Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestáltica, v. 26, p. 382-392, 2020
MOTTA, Hinayana Leão; ASSIS, Gustavo Alves Pereira de; SATELIS, Leila Ribeiro. A Gestalt-Terapia como clínica do encontro: compreendendo a relação dialógica. Phenomenological Studies – Revista da Abordagem Gestáltica, v. 26, edição especial, p. 382-392, 2020. DOI 10.18065/2020v26ne.3.
ZINKER, J. Permissão para ser criativo. In: ZINKER, J. O processo criativo em gestalt-terapia. 2. ed. São Paulo: Summus, 2007. p. 15-33.