Teoria do self gestáltica
Abertura para uma ética clínica ecocentrada
Palavras-chave:
Gestalt-Terapia, Ecofenomenologia, Clínica, MetafísicaResumo
A tradição metafísica que orienta as relações humanas, sobretudo em relação aos pensamentos científico e filosófico modernos, individualiza e substancializa a consciência. Consagrada como uma caixa, um gabinete fechado, a consciência é tida, pelo pensamento moderno da tradição, como sempre consciência de si mesma. Toda realidade fora do “dentro” que é nossa consciência é interpretada por inferências mentais, marcando drasticamente um binarismo essencial: de um lado, o sujeito, e do outro, o mundo, como um leque de contingências e estímulos que vão dar vazão à essas interpretações. “Predicamento egocêntrico” é o conceito dado à perspectiva tradicional da consciência, que coloca o “homem” no centro e, tudo que se vê, como se vê, é a partir de uma ótica, ou mediação, através do homem, ou seja, nossa tradição predispõe uma ética “Antropocêntrica”. Edmund Husserl, na contramão da lógica do Predicamento egocêntrico e seguindo os passos de seu mestre Franz Brentano, se apropria do conceito de intencionalidade onde “toda consciência é consciência de alguma coisa", para superar o binarismo sujeito/mundo. Argumenta que, os vividos acontecem no tempo, portanto são diferentes a cada vez. Mas são diferentes apenas no tempo, a cada vez, como perfis de vividos essenciais. Quebrando a ética antropocênctrica, a fenomenologia de Husserl então pode ser considerada uma revolução, uma quebra de paradigmas, ou ainda nasce da reabilitação do verbo ver, designando, não uma individualidade de experiências substanciais, mas uma intersubjetividade temporânea onde não se existe sujeito sem mundo, que são interconectados intencionalmente. Ora, não estaria a Gestalt-Terapia na esteira desse pensamento não binário quando, em sua primeira assertiva traz na sua obra canônica “toda experiência acontece na fronteira de contato entre o organismo e o ambiente”. Ainda que haja resquícios de uma ética antropocêntrica, a teoria do self pode ser uma abertura para um outro projeto de reabilitar o verbo “ver”. Se a experiência acontece no entre do organismo/ambiente, então esse organismo existe junto com suas possibilidades temporais e ambientais, sendo impossível se desassociar destas. Esse “ver no entre”, como uma quebra dos binarismos tradicionais, aqui lemos como um convite fenomenológico para uma outra ética, não uma ética antropocênctica, mas uma ética ecocentrada.
Referências
CABRAL, Alexandre Marques. Ecofenomenologia decolonial: variações fenomenológicas sobre a alteridade. Nau Editora, 2022.
MULLER-GRANZOTTO, Marcos José. Fenomenologia e Gestalt-terapia. Grupo Editorial Summus, 2007.
PHG, Gestalt-Terapia, Tradução: Fernando Rosa Ribeiro, São Paulo: Summus, 1997.
SOKOLOWSKI, Robert. Introdução à fenomenologia. Edições Loyola, 2004.