O impacto do câncer de próstata na vida dos pacientes
Uma análise a partir da teoria gestáltica do self
Palavras-chave:
câncer de próstata, processos patológicos, masculinidade, Gestalt-terapiaResumo
Introdução: Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS, 2025) o câncer de próstata compreende 7,3% do total de novos casos registrados no mundo em 2022 e é o segundo mais comum em homens, perdendo apenas para os tumores de pele não melanoma. No Brasil, para o período de 2023 a 2025, há a estimativa de mais de 70 mil novos diagnósticos de câncer de próstata, com ocorrência predominante no público com mais de 60 anos (INCA, 2023). Os efeitos da doença são devastadores no campo psíquico e podem surgir sintomas como a depressão, ansiedade, fadiga e ideação suicida (Ladeira; Grincenkov, 2020). As disfunções sexuais decorrentes do tratamento afetam de modo especial a autoimagem e causam prejuízo na saúde mental e nas interações sociais (Chambers et al., 2017). Objetivos: A pesquisa objetivou mapear, por meio de uma revisão de escopo, os impactos do câncer de próstata na vida dos pacientes e identificar algumas especificidades vividas por diferentes populações. Também buscou compreender como a clínica gestáltica do sofrimento ético, político e antropológico pode contribuir para a análise do sofrimento somático. Metodologia: Empregou-se, neste estudo, uma revisão de escopo seguindo o protocolo Prisma-ScR (Tricco et al., 2018). As buscas foram realizadas nas bases de dados PubMed, Scopus e Web of Science e foram incluídos estudos qualitativos e de métodos mistos publicados entre 2019 e 2024. Foram encontrados 297 artigos que, depois de analisados a partir do escrutínio do título e do resumo, restaram 14 para a análise final e produção de dados. Os resultados foram analisados a partir da teoria do self gestáltico apresentado por Goodman no livro Gestalt-Terapia (Perls; Hefferline; Goodman,1997) e que compreende o contato entre organismo-ambiente por meio das funções Id, Ego e Personalidade. Também incluímos as contribuições de Müller-Granzotto e Müller-Granzotto (2007; 2012a 2012b) e Belmino (2020), que interpretam e tratam das vulnerabilidades ética, política e antropológica das funções do self. Resultados e discussões: Os resultados mostram que os efeitos secundários do tratamento como a incontinência urinária, disfunção erétil e fim da ejaculação afetam a autoperceção e geram a perda de controle sobre o próprio corpo e sentimentos de incerteza e angústia nos doentes (Araújo et al., 2019). Estes efeitos têm impacto na percepção da identidade masculina, e muitos homens sentem que seus corpos não conseguem mais atender aos padrões impostos pela masculinidade hegemônica (Peloso-Carvalho et al., 2023). Os dados também mostraram que o apoio da família, de grupos com experiências semelhantes e a práticas de religiosidade/espiritualidade são fatores de proteção para pessoas com câncer de próstata (Fernández-Sola et al., 2020; Kazımoğlu et al., 2023). Outros entendem o câncer de próstata como parte do processo de envelhecimento e finitude e por isso relativizam os efeitos da doença (Danemalm Jägervall et al., 2019; Peloso-Carvalho et al., 2023; Rönningås et al., 2022). Na teoria gestáltica do self o adoecimento está associado à clínica do sofrimento e vinculado à vulnerabilidade da função personalidade. Nestes casos de adoecimento há um pedido de socorro para ser incluído e gerar novas formas de representação social com as quais a pessoa possa se identificar. Na função personalidade a experiência de contato assume um sentido ético-político e antropológico e os dados de realidade tornam-se inacessíveis ao agente do contato, ou seja, à função de ato ((Müller-Granzotto; Müller-Granzotto, 2012b). A clínica do sofrimento ético-político e antropológico também é denominada de clínica das violações (Belmino, 2020) e a pessoa perde a autonomia e sua identidade social de pessoa produtiva fica comprometida. No adoecimento a fluidez do sistema self fica afetada e é fundamental a pessoa sentir-se pertencente ao meio social em que vive. A clínica do sofrimento ético-político e antropológico também vislumbra a possibilidade de humanizar os espaços, procedimentos e cuidados relacionados à promoção da saúde (Bernardo; Belmino, 2015). Conclusões: A pesquisa destaca os desafios éticos, sexuais, corporais e existenciais decorrentes da experiência trazida pelo câncer de próstata. A análise também evidenciou o papel dos fatores protetivos como o apoio familiar, da(o) parceira(o) ou cônjuge, de outros pacientes na mesma condição e da espiritualidade. A teoria gestáltica do self se mostrou um instrumento oportuno para compreender e pensar práticas junto a pessoas que estão em adoecimento somático.
Referências
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